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O MACACO E O AGRICULTOR

Proposta de conversa com Primeiro-ministro Por melhores que sejam os planos de desenvolvimento, de relançamento da economia ou de combate à pobreza, se o governo não combater a corrupção, será impossível colher os resultados esperados. Será o mesmo que esperar encher o cesto de palha com água.
Os corruptos são como macacos da machamba. Enquanto o homem trabalha a terra, lança a semente e ou planta a cultura, ele está a ver; a espera da hora da colheita ou mesmo antes, para roubar. Nas plantações de cana-de-açúcar, o macaco arranca a estaca, comprometendo a própria produção do açúcar, fazendo o mesmo nas de mandioca e amendoim. Nas plantações de milho, ele chega cedo para dizimar a maçaroca. A melancia, ele parte-a, deita água e come o que lhe interessa.
Ou seja, a não ser que o agricultor interessado em garantir a sua produção encontre formas eficazes de conter a sagacidade do macaco, debalde será todo esforço financeiro, braçal e o tempo perdido e a frustração tomará conta deste. É po…

A ILUSÃO DAS ARMAS E O JOGO ALHEIO

Egidio Vaz
Espero que o texto seja o mais breve possível. 
Trata-se da ilusão da força das armas. Mas começarei com um dado curioso, cínico e, provavelmente de mau gosto: o número total de mortes por acidentes de viação é de longe superior que o dos mortos em consequência deste conflito neste momento: a OMS reporta uma media de 8 mil mortes por ano vitimas de acidentes de viação na República de Moçambique. Só em Janeiro de 2016, morreram mais de 24 pessoas e 57 ficaram feridos. Comparativamente a esta guerra, para além dos 5 mil refugiados vivos, pouco menos de 15 civis são reportados como mortos nos últimos 60 dias. Para além disto, não parece haver nenhum avanço de tomada de posições de ambas as partes, apesar de tanto barulho na imprensa comum e redes sociais. Portanto, estamos perante um bluff de um conflito armado; um jogo de baixo jaez, com muita malcriadez à mistura. Alguém, como é de imaginar, está a enriquecer a custa disto. 
Mas deixem-me voltar ao tema principal para discutir …

PENSAR NA PAZ SABENDO O QUE FAZER: ENTRE O VAZIO DAS PALAVRAS E O BELICISMO, A TERCEIRA VIA

Estive recentemente em Quelimane para, entre outras coisas, partilhar ideias em torno da nossa crise político-militar. Não irei resumir o que disse, mas irei partilhar as linhas centrais do que julgo serem os maiores empecilhos à paz e que gravitam todos em torno da incapacidade dos actores envolvidos em superar os seus próprios vícios, limitações e preconceitos sobre o país e o sobre a sua responsabilidade para a preservação da Paz, bem como no esgotamento do actual modelo das relações políticas.
Para começar, gostaria de lembrar a todos que Moçambique vive os mesmos problemas desde que ele se conhece como uma democracia multipartidária. Os conflitos pós-eleitorais são uma constante desde 1994 e o que se viveu desde então foi sempre a mesma coisa: eleições/alegações de fraude/não-reconhecimento dos resultados/manifestações/mortes/gestão de conflitos/eleições/boicotes da Renamo/eleições. Paralelamente a isto, os homens armados sempre foram assunto de capas de jornais em momentos elei…

Aprender de Angola? Que lições?

O Presidente da República está em Angola e uma das coisas de que gostou foi ter notado que os partidos políticos não têm militares ou forças armadas. Gostou tanto ao ponto de sugerir que os deputados moçambicanos explorassem a experiência angolana. Quando os moçambicanos falam ou ouvem falar da “solução angolana” pensam na morte de Jonas Savimbi, em Fevereiro de 2002. Esta morte coincidiu com fim das hostilidades entre a UNITA e o governo. Desde 2002 a esta parte, não existem em Angola, outras forças militares que não sejam estatais. Em Moçambique porém, a Renamo ficou com algumas forças residuais, ao abrigo dos acordos gerais de Roma de 1992. A verdade porém é que mais tarde soube-se que a Renamo escondeu parte da sua tropa e durante o conflito de 2012, houve algum recrutamento adicional. Desde 1992 que a imprensa nacional reporta sobre “descobertas” de esconderijos de armas e recolha de outros, incluindo o ataque e roubo ao quartel de armamento de Dondo, em 2013.
Ao falarmos da “solu…

Discursos de Abertura da II Sessão Ordinária da VIII Legislatura da Assembleia da República. Teve início hoje a II sessão da AR.

Gostei do que ouvi. Em termos de discurso, duas surpresas: O Discurso da Deputada Margarida Talapa, chefe da bancada da Frelimo. Foi, quanto a mim, o primeiro discurso bem-conseguido daquela dirigente, desde que a conheço naquela qualidade.
Não foi o melhor em termos de ideias políticas. Não necessariamente. Mas exercitou pela primeira vez a lógica e a coerência discursiva. E defendeu algumas ideias das quais cito de memória:
1-Que a Frelimo é pela Paz e a prova disso é que tem vindo a acomodar e a ceder as exigências da Renamo desde 1992. Citou o conflito recente e a consequente produção legislativa.
2-Apontou para o diálogo como único caminho para a solução e reiterou a prontidão da sua bancada em contribuir para este efeito. A outra surpresa foi o MDM. A bancada do MDM foi clara, directa e contundente em relação aos pontos pelos quais irá se bater nesta sessão: na proposta da revisão da constituição, ela irá defender a redução dos poderes do PR, que na sua óptica são excessivos; uma …

CARTA ABERTA AOS IRMÃOS DE LUANDA

“Não faz muito sentido uma greve de fome num país onde a liderança não consegue alimentar todos seus cidadãos”

Caros irmãos,
Tenho seguido com muita apreensão as notícias que documentam o mal-estar da democracia no vosso país. Não é assim tão diferente do nosso caso, mas aqui pelo menos, os problemas estão bem documentados e ainda podemos nos dar ao luxo de chegar perto dos nossos dirigentes ou publicamente expressarmos sentimentos contra eles sem que tal atrevimento se traduza automaticamente em detenções. SIM, ocorreu nos últimos dias da anterior governação que três cidadãos foram judicialmente processados, acusados de crimes contra a segurança do Estado pelo facto de um deles ter expressado uma opinião critica em relação a governação e os outros dois terem publicado a carta em órgãos de informação.

Felizmente, no limiar da nova governação, um jovem juiz conseguiu rechaçar para bem longe os receios de um provável regresso da “lei da rolha” e da mordaça à liberdade de imprensa, de pens…

A imprensa moçambicana está fomentar a guera

Tal como aconteceu na guerra dos 16 anos, hoje a comunicação social está profundamente envolvida no fomento à instabilidade. A comunicação social moçambicana tem a cota-parte de responsabilidade no ambiente político-militar que vivemos porque ela não está a contribuir para a compreensão do que está em causa. O público está a ser bombardeado com informação propagandística de ambos lados da contenda. Isto está a prejudicar em grande medida a capacidade de o público, a sociedade civil, posicionar-se de forma coerente. Grande parte do que temos lido na comunicação social não são notícias. São opiniões e editoriais que a partida tomam partido claro. Alguns exemplos:
Grande parte de “notícias” dos jornais Noticias, Domingo ou TVM e AIM (língua portuguesa) são de opiniões de analistas pró-regime que se desdobram em condenar a guerra e apelar a paz. De permeio, diabolizam Afonso Dhlakama ao mesmo tempo que “apelam” ambas as partes a continuarem com o diálogo. Este esquema funciona da seguinte …

DAS NOMEAÇÕES: COMPETÊNCIA E DEMOCRACIA

Nos últimos três meses, três nomeações “abalaram-me”: as substituições de Nelson Ocuane por Omar Mithá na ENH; João Ribeiro por Osvaldo Machatine no INGC, Rosário Fernandes por Amelia Nakare na Autoridade Tributária e, provavelmente, de João Loureiro por Maria Isaltina de Sales Luca no INE. Em média, todos os que foram substituídos representam a cara limpa de dirigentes do estado em pelouros-chave que, com transparência, sabedoria e mérito, dirigiram as instituições mais nevrálgicas de Moçambique.
Como era de esperar, não faltaram lamúrias, medo e incerteza sobre o rumo das instituições dirigidas pelos exonerados, num momento em que a corrupção e o clientelismo afiguram-se como os principais desafios a superar na actual governação. A reacção que mais se ouve por aí é amiúde: “que pena, ele era tão competente. Será que o substituto conseguirá manter o ritmo?”. Outras reacções perscrutam ou abordagens clientelistas ou as que tem a ver com a meritocracia. Deixe-me sugerir-vos uma pergunt…