Terça-feira, Março 10, 2009

Para que não seja cúmplice

Sobre o MDM de Daviz Simango

Há dois assuntos que, apesar de suscitarem em mim um interesse especial, sempre receei comentá-los, pelo menos publicamente. O primeiro foi o processo eleitoral americano, que culminou com a eleição de Barack Obama. Pelo menos considero-me um dos que em Moçambique, acompanham de perto e de forma apaixonada a política americana estando deste modo, numa posição privilegiada para formar uma opinião a propósito. Porém não o fiz. O outro foi o processo eleitoral autárquico nacional e a reeleição de Daviz Simango. E já agora a formação do MDM. Sobre o último ponto, não resisti. Farei hoje o meu comentário que de certeza vai contra aquilo que muitos dos que publicamente se expressam esperam deste movimento. Para já, faço-o hoje por um motivo especial: Para que não seja cúmplice da história.

I Sobre Daviz Simango e sua carreira Política

Serei sucinto, apenas para aproveitar a oportunidade para felicitá-lo pelo sucesso alcançado nas últimas eleições municipais. Daviz é dos poucos políticos que, à semelhança de Eneas Comiche, conseguiu, em Moçambique granjear a simpatia, reconhecimento e respeito pelo trabalho feito. Por isso mesmo, na cidade da Beira, o povo o reelegeu.

Esta vitória doeu a duas pessoas principais: Lourenço Bulha, que agora acaba de ser crucificado e Afonso Dhlakama que pela primeira vez na história da sua gestão danosa foi deixado sozinho por grande parte dos seus poucos quadros.

Daviz Simango inicia-se na política quase desconhecido; sem nenhuma obra política de referência, para além de ser irmão de Lutero, antigo presidente do PCN e filho de Urias Simango, fundador do tal partido que Lutero e outros “espertos”decidiram dissolver para se filiarem à Renamo, na vã esperança de um dia renderem Afonso Dhlakama na liderança do partido. Daviz Simango permaneceu na Beira e fez o trabalho. Tirou a Beira da lista dos maus nomes para lança-la no patamar de boas cidades do Mundo; de cidades com uma liderança forte.

A ascensão política de Daviz fez com que muitos o invejassem, principalmente dentro da Renamo; uma tradição fomentada pelo seu líder. Por isso, apesar do sucesso e da credibilidade governativa que trouxe a favor da Renamo, Daviz não logrou apoio interno. Por um lado, Afonso Dhlakama que se sentia ameaçado, uma vez que comentadores, analistas e outros curiosos avançavam o nome de Daviz como seu sucessor ideal. Porque ele é tão alérgico e paranóico a esse tipo de informação, tratou de fazê-lo a cama de forma mais desajeitada e tacanha. Por outro, a verticalidade e coerência com que tratava os seus pares da Renamo fez com que colhesse a tempestade, já que Daviz não se compadecia com quaisquer práticas nepotistas ou partidárias no âmbito da gestão do Município.

II Da Vitória

A Vitória de Daviz Simango na Beira deveu-se mais a um fenómeno político muito interessante: por um lado ao apresentar-se como vítima de um grupelho de espertos e mal-intencionados que lograram enganar Dhlakama para a seu desfavor indicar Manuel Pereira, Daviz conseguiu assim salvaguardar e ao mesmo tempo apelar à emoção de grande parte das bases da Renamo e dos “swing voters”.

Por outro, ao apresentar um bom trabalho ao longo dos últimos anos evidenciado pelo vários prémios e menções honrosas no exterior do país, Daviz conseguiu por em causa e assim tornar-se imune às quaisquer iniciativas de contra-ataque e de jogos baixos, postos em marcha antes, durante e após a campanha eleitoral. O povo esteve com ele e o protegeu.  

Porém, esses dois factos não podem como é óbvio, subestimar a excelente campanha eleitoral, uma campanha do tipo novo, onde se evidenciava o enfoque na mensagem, no programa de governação e não no insulto, calúnia e difamação. Creio que para a esmagadora maioria dos beirenses, a ideia central por detrás do apoio prestado a Daviz era punir Dhlakama por ter sido comprado pela Frelimo – recorde-se por exemplo, as declarações de Faque Ferraria, gravadas pelo telemóvel.

III Do Partido recém-nascido

A tónica geral em torno deste novo movimento é bem conhecida. São poucas as pessoas que vieram a público expressar seja suas dúvidas quanto a viabilidade ou qualquer outro tipo de oposição. Nisto, nota positiva vai a Afonso Dhlakama que apenas limitou-se em dizer que o partido MDM não ofuscará a imagem da Renamo. E nem de outro partido – acrescento.

Porém, no meu caso, se pelo menos não estou contra a formação deste partido, estou outrossim o céptico quanto a sua viabilidade. Sou dos pouquíssimos que não acreditam no futuro do partido neste momento pelo facto de ele ser constituído por pessoas (1) desertores de outros movimentos, maioritariamente da Renamo - facto não novo se tivermos em conta o apogeu e declínio do PDD de Raul Domingos, que, diga-se abono da verdade, que não acrescentou nenhum valor à nossa democracia – facto que muito irá contribuir para a continuação dos mesmos erros de gestão e governação político-partidária. O PDD mais uma vez pode nos ilustrar com exemplos claros sobre a forma como estava centralizada a governação e gestão partidárias. A razão é muito simples: grande parte deles nunca estiveram expostas a outras realidades de gestão, a não ser a experiência do velho Dhlakama, como carinhosamente gosta de ser chamado; (2) como políticos, individualmente, a maioria não acrescenta nenhum capital ao do Daviz. Alguns dos deputados da Renamo que se fala estarem prestes a se filiarem ao partido de Daviz, foram candidatos esmagadoramente derrotados nas últimas eleições autárquicas, outros, não conseguiram se quer contribuir com uma única palavra, no debate de ideias da Assembleia da República. Por último (3) parece-me que grande parte dos que aureolam Daviz, estão tão obcecados pelo partido em si, de tal sorte que suspeito desconhecerem da verdadeira realidade que lhes espera. Pensam em última instância, que basta a fama de Daviz e a aceitação que possui na Beira, para que a mesma se irradie pelo país adentro. Parece-me a mim, terem feito uma leitura superficial e algo apaixonada da base social que os apoia para projectarem homoteticamente às realidades tão distantes das que se vive na Beira e Maputo, por exemplo. E em última instância, Daviz Simango deixou-se enganar por grupos de políticos emergentes que procuram um lugar ao sol à custa da sua imagem. Para dar mais luz ao que escrevia antes, vamos dar alguns exemplos:

Lutero Simango, irmão do Daviz, liderou o PCN ao longo do tempo em que viveu. Acabou dissolvendo-o para se juntar a Renamo. Portanto, Lutero é por definição um calhau; um político falhado e sem visão. Mesmo assim, está nos círculos dos que aconselham Daviz.

Agostinho Ussore foi por muitos anos, digamos uma década, principal Assessor de Afonso Dhlakama. E sabemos qual tem sido o desempenho deste ao longo dos anos.

Maria Moreno - já se fala de que será a próxima SG do MDM - perdeu vergonhosamente em Cuamba, uma pequena vila do norte de Moçambique, quando em Novembro passado concorreu pela Renamo.

Máximo Dias, que apoiou a formação deste partido, dissolveu o seu MONAMO há anos, tendo-o transformado numa organização não-governamental.

Carlos Jeque, que também apoiou a formação do Partido, foi candidato várias vezes vergonhosamente derrotado a todos níveis. Nacional e Autárquico!

A dita “ala intelectual” não tem nenhuma inserção política a nível das bases. Ninguém os conhece, aliás o povo não os conhece, apesar de se lhe reconhecer o grande contributo para o aprimoramento do debate público e das leis.

Quanto a outros políticos e intelectuais que agora aureolam Daviz e lhe dão muita força e dinheiro inicial, a minha experiência manda dizer que esses irão fugir-lhe muito brevemente, à semelhança de Pedro, que disse não conhecer Jesus Cristo, quando os Judeus o haviam capturado e posteriormente conduzido ao Calvário. Aconteceu com Raul Domingos que muito antes de fundar o PDD, tinha o seu IPADE. Este Instituto, tinha muitos “quadros” que o acompanharam até a fundação do PDD. E, coincide serem os mesmos que ora acompanham a criação do MDM!

Um partido político que se ergue e se sustenta na base de desertores é um partido sem fundações sólidas. E será difícil elaborar mensagens frescas que inspirem confiança no eleitorado.


IV Do Eleitorado

Como anteriormente vinha escrevendo, acho inoportuno a criação de mais um Partido Político só porque alguém, neste caso Daviz, “está a ser pressionado pelas bases”para agir nesse sentido. Há três elementos que quanto a mim fundamentais e a ter em conta no quadro político nacional

a)      Sustentabilidade financeira: Em África e em Moçambique em especial gerir um partido é uma tarefa bastante difícil, principalmente em relação às finanças. Muitos dos partidos que temos em Moçambique são financeiramente inviáveis. E essa inviabilidade financeira é proporcional a irrelevância política, porque não redistribui. Um partido político com dificuldades financeiras dificilmente conseguirá levar a cabo reuniões regulares, pagar funcionários e fazer passar suas mensagens ao público. Dificilmente conseguirá redistribuir. Temos muitos partidos que nasceram, incluindo o PDD, que não equacionaram este elemento. Temo-los neste momento, moribundos; inactivos e aparentemente acéfalos. Espero que o MDM saiba gerir melhor os seus recursos;

b)      Eleitorado: Sendo a maioria que constitui a grupo forte deste novo Movimento proveniente da Renamo, está claro que quem sai a perder numa primeira fase é a própria Renamo. E não a Frelimo, apesar de constituir para este uma ameaça. Todos os movimentos políticos que nasceram e estão morrer, muito dificilmente conseguiram ao longo de anos, ganhar novos membros. E como tenho dito, em Moçambique o partido ganhador deverá ser aquele que conseguir convencer o eleitorado oscilante, eleitorado apartidário, aqueles cidadãos que olham com desconfiança a vida e os partidos políticos. Se Daviz conseguir fazer aquilo que conseguiu fazer na Beira, de certeza que irá suplantar a hegemonia da Renamo nas próximas eleições. Será que conseguirá? Vejamos a alínea seguinte.

c)       O MDM é um partido que nasce na cidade. Sabendo que a maioria da população vive no campo, qualquer partido ganhador deverá captar a simpatia destes. Portanto, logo à partida, o MDM nasce em desvantagem; digamos, sem pernas. Precisará de erguer algumas próteses para poder competir com a Renamo e a Frelimo e PDD, seus principais adversários. Conseguirá Daviz inverter esta desvantagem?

d)      A dimensão do tempo; preparação para a “travessia no deserto”: a experiência recente mostra que muito dos sonhos que nascem nas cabeças dos nossos políticos na verdade não sonhos embaçados numa visão de estado e da nação, mas antes, ambições mesquinhas, temperadas por alguns tiques de inveja, rancor e vingança. O perfil dos principais actores envolvidos na fundação do partido de Daviz Simango anuncia uma grande dificuldade de a breve trecho o MDM poder ter a sua própria identidade. Ao explorar em demasia as suas clivagens com a Renamo e Dhlakama em particular, receio que este partido venha a perder mais tempo a justificar a razão do seu divórcio com a Renamo e seu líder do que necessariamente a proposta de linhas de governação alternativos e viáveis. Grande parte dos actuais líderes do MDM está ávida em isolar Dhlakama do que necessariamente formar e consolidar um partido político. Em última instância, esses não estão conscientes das dificuldades que lhes esperam: a travessia no deserto como eu gosto de chamar, constitui o conjunto de adversidades sociais, económicas, profissionais e políticas que os membros do partido irão experimentar antes de chegarem lá. Refiro-me as consequências de ser membro do MDM em Moçambique: exclusão social, económica, cultural e profissional a que alguns dos membros irão sofrer. Uns perderão os seus empregos, outros verão seus negócios falidos por falta de uma ou outra forma de subvenção, ainda outros perderão seus cargos. O partido passará por grandes crises financeiras, organizacionais e até políticas. Conseguirão os seus membros resistirem à tentação de “voltar a esta casa” ou outra com aconteceu com tantos outros membros da Renamo e PDD? Ponto que quero marcar não tem nada a ver com o desencorajamento. Antes pelo contrário, como pessoa que testemunhou deserções e capitulações de pessoas que hoje encorajaram Daviz Simango a formar seu partido, receio que as mesmas o venham abandonar quando deles mais precisar! Será que será desta vez que Lutero Simango não mudará de partido? Será desta vez que Lutero Simango não irá convencer o irmão a fundir com a Renamo, preferindo uns interessantes corta-matos? Será que é desta vez que Máximo Dias se convenceu que o país precisa de mais um partido e não mais uma ONG como concluiu ao dissolver o defunto MONAMO?

A impressão geral que prevalece é de que estes não conseguirão suster longos anos de espera e trabalho aturado para que um dia venham lograr o que pretendem agora.

 V Havia alternativa?

Muitos deverão pensar que Egídio Vaz é contra a emergência de partidos políticos em Moçambique. Porém, uma coisa deverão ter em conta antes de me lançarem arremessos.

Uma estratégia ganhadora não se compadece com correrias e oportunismos fugazes

O tempo é propício. Os que lutaram lado-a-lado com Daviz nas últimas autárquicas, acham que fizeram muito. E a sua experiência deveria se replicar ao nível nacional. Apareceram ajudas aqui e acolá, e mais ajudas foram prometidas. Daviz é o Jet-Set do momento. Acham, enganando-se uns aos outros, que isso permanecerá assim. Se Dhlakama e Guebuza entrarem em cena, será tarde e descobrirão que entraram num ringue de escalão maior! Perguntem ao PDD, PIMO e PT ou os respectivos líderes. E porque a maioria dos componentes do partido andam apressados em ocupar os lugares das Assembleias Provinciais e da República nos próximos pleitos eleitorais – saberão quão longe estão e a vertigem da desmoralização será proporcional àquela que motivou a formação do MDM.

Política não é tudo. Ficar em casa ou fazer outra coisa seria outra solução viável

Não acho correcto que pessoas que se querem idóneas andem a mudar de partidos toda a hora; ou andem a fundar novos movimentos. Manuel Alegre concorreu como independente nas últimas presidenciais em Portugal. Perdeu dignamente. Nem por isso decidiu formar o seu partido; muito menos saiu do PS! Permaneceu lá; mesmo ostracizado. Porém, continua uma das referências mais importantes para a democracia portuguesa. Do lado oposto, está Manuel Monteiro, que tendo perdido em directas com Paulo Portas, fundou o seu partido. Hoje esse partidinho passa-se despercebido n xadrez político nacional.

Dhlakama não é Renamo. Um dia ele deixará o poder. Por bem ou por mal ou, havia motivo para formar Partido?

Faltou paciência ou é gula e ambição demasiada, temperada com tiques de vingança e megalomania da parte dos fundadores do MDM. Acredito que Dhlakama um dia irá deixar o poder. Acredito também que quando esse dia chegar, PDD e MDM irão desaparecer para de novo se fundirem em um só. Porque na verdade, esses dois movimentos são apenas versões da Renamo. O dia em que as três versões forem revistas, ter-se-á afinal uma única Renamo. Portanto, esse todo esforço em vão é desnecessário e atrapalha a política e o desenvolvimento da democracia verdadeira que pretendemos. Se os homens pudessem por algum tempo pensar no povo, veriam que a formação de mais partidos por membros vindos da Renamo apenas fragiliza a própria Renamo e a Democracia e aumenta cada vez mais as probabilidades de a oposição passar a desempenhar um papel de acessório no actual xadrez político. Se Daviz depois de ganhar as eleições cuidasse apenas do seu emprego juntamente com seus colaboradores; se Raul Domingos e outros se dedicassem a outras actividades e não à criação de outros movimentos políticos; se os deputados expulsos fizessem outra coisa...talvez tivéssemos uma outra realidade. Existem várias outras formas de como contribuir para o fortalecimento da nossa democracia. E parece-me que os actuais políticos e estes que vão formando novos partidos, apenas contribuem para distorce-la.

VI Saídas

Bom, uma palavra de esperança para os que ainda acreditam na viabilidade do MDM. Três opções se lhes reservam:

  1. Tornar-se num partido pequeno. Redimensionar-se e definir o seu espaço inicial para actuar politicamente por forma a racionalizar os esforços, recursos e enfoque. Para tal, terá que definir o entro do país como sua área de actuação, numa primeira fase.
  2. Dotar o partido de um discurso radical e mensagens focalizadas a um determinado tipo de audiência. Nas actuais condições, o MDM devia deixar de pensar de forma mastodôntica e centrar o seu discurso nos jovens, especialmente nos centros urbanos, onde pode lograr alguma aderência dada a própria natureza do seu surgimento.
  3. Daviz Simango deverá a partir de agora, começar a formar o seu partido e a sua equipa de trabalho. A actual comissão política é uma farsa; há gente que na verdade manda de fora, e são exactamente essas pessoas que poderão levá-lo à maneta se lhes prestar ouvido. Quando era estudante, há um professor que me dizia assim: se queres ser bom na minha cadeira, por favor, não procure um repetente para te resolver o exercício ou preparar lições. Ele passará o tempo todo ou a te amedrontar, ou a te falar da sua experiência (falida). Rodei-te de pessoas novas, frescas; e busque-as noutros lugares. Mas não na Renamo ou Frelimo...please.

Quinta-feira, Março 05, 2009

"Estamos Numa Boa"

Ou, da necessidade de Verdadeiros e Sérios Assessores de Imprensa e Comunicação nos Ministérios.

Este texto vem a propósito de um post que o meu amigo e ilustre blogger, Jonathan MacCarthy publicou lá vai aproximadamente uma semana. O post, com o título bem apelativo chama atenção às entidades do Ministério de Ciência e Tecnologia sobre um facto no mínimo bizarro e criminoso que vem se desenvolvendo desde o ano passado, girando em torno das 50 bolsas de estudo concedidas pelo Governo brasileiro ao governo moçambicano. Não farei bom resumo neste espaço, mas, para que fique registado eis o cerne:

a) O Governo do Brasil concedeu 50 Bolsas de Estudo ao Governo Moçambicano

b) O Governo aceitou (aliás, foi ele quem as pediu) moçambicano lançou um concurso, chamando a todos os interessados a concorrer

c) Foram apurados ainda ano passado todos os cinquenta candidatos

Porém....

d) A lista de apuramento final apenas saiu faz sensivelmente duas semanas, numa altura que apenas faltam escassos dias do início das aulas no Brasil (este mês)

e) O governo brasileiro não pagará as passagens dos bolseiros - e o governo moçambicano já sabia aquando da assinatura do convénio mas os bolseiros ou concorrentes não o sabiam. Porém, quanto a este assunto, o Ministério diz que não tem dinheiro para pagar as passagens dos bolseiros (informação prestada tardiamente) e que os estudantes interessados deveriam sozinhos pagar essas passagens avaliadas em US$ 2. 500.00.

f) Este é o período de pico em relação a voos para cidades brasileiras, por causa do Carnaval. Portanto, está difícil não só arranjar esse valor em duas semanas como também encontrar lugar nos voos. Pior, em duas semanas, os interessados deverão decidir muita coisas para as suas vidas...continuem no blog dele.

Para agravar

g) No Ministério, o chefe que lida com essas coisas está de férias incontactável/incomunicável

h) MacCarthy está aí a fazer uma interessante análise, aproveitando a ocasião para mostrar a sua frustração com a pessoa do Ministro da Ciência e Tecnologia e o resto da sua equipa (incluindo seus assessores de imprensa e comunicação, se existem; objecto da minha análise aqui).

Há sete dias que este texto anda por aí a circular, e nenhuma reacção pública se fez sentir; nenhum esclarecimento sequer, mesmo um comunicado politicamente correcto foi emitido. Tratando-se da internet, o Governo brasileiro bem como as universidades onde estes estudantes estão para ir estudar já sabem, porque MacCarthy já escreveu. Já leram e ...não sei o que estão a fazer/fizeram ou disseram aos estudantes para fazer.

Porém, temos tantos assessores que aureolam o Ministro da Ciência e Tecnologia! Surpreende-me também o silêncio deste Ministério, que, perante assunto tão grave como esse, e que veio a público através de um blogue, o nosso Governo, mas principalmente o Ministério da Ciência e Tecnologia não tenha feito nada. Para perceber bem o meu ponto gostaria de esclarecer porque esse assunto é grave e merecia uma reacção urgente pelo Ministro, coadjuvado pelos seus Assessores:

1. IMAGEM DO ESTADO E GOVERNO MOÇAMBICANO ESTÁ EM CAUSA

a) Por se mostrar não sério: O Governo Moçambicano anda em várias demarches pelo mundo fora em busca de ajuda para a solução de seus vários e infindáveis problemas, dentre os quais o ensino. Aparece Brasil e decide ajudar, oferecendo 50 bolsas de estudo anuais para o Brasil. O governo aceita, e decide lançar o concurso para provimento das mesmas. Consumado o facto, eis que o governo decide ir “brincar ao baloiço”. Ganha tempo e apenas divulga a lista dos apurados há escassos dias do início das aulas com todas as imperfeições que o processo acarretou.

b) Agora, grande parte desses bolseiros correm o risco de desistirem dadas as causas relevadas em alíneas estabelecidas na parte introdutória do texto. E a acontecer, constituiria um facto decepcionante tanto para o Governo brasileiro como para os próprios bolseiros em particular.

c) É que ao reservar 50 lugares para moçambicanos irem estudar, o Governo Brasileiro, na verdade retirou essa oportunidade a 50 brasileiros que também mereciam estudar de graça, porque seu direito; porque também pagadores de impostos e demais razões óbvias. Mas, em nome da solidariedade, o Governo brasileiro preferiu ajudar-nos, dando a oportunidade de também incrementarmos o nosso caudal de pessoas com formação superior. Porém, já que o nosso Governo é mesmo nosso (Mwathu Muno), esse decidiu mostrar aos brasileiros a nossa versão de seriedade, deixando tudo para o fim e os bolseiros seleccionados à sua sorte.

d) Na década de 60 do século XX o governo da República Unida da Tanzânia e outros concederam-nos seus territórios para treinar soldados e a partir deles, organizarmos a luta pela libertação nacional. Imaginem se Mondlane, Samora, Guebuza e Marcelino dos Santos; Chipande, Urias Simango, em vez de organizarem o trabalho, soldados e mobilizarem apoio a partir destes territórios, se dedicassem à uns negócios quaisquer; em vez de usar as armas doadas para o combate, usassem-nas para a caça de alguns animais herbívoros e só quando surpreendidos pelo inimigo, fossem usadas para se defenderem! Já agora, imaginem se na década de 80 do século passado Mugabe e outros camaradas que faziam de Moçambique sua retaguarda segura na luta pela libertação da sua pátria, imaginem, dizia, se em vez disso, eles se dedicassem a dar aulas de inglês nas escolas de Manica, Sussundenga, Machaze, Guro, etc!

e) A comparação pode parecer bizarra mas é séria. É que neste momento, a guerra que nos resta é esta: correr contra o tempo rumo ao alcance da emancipação científica; pedra de toque para alavancarmos o tal almejado desenvolvimento com a inovação tecnológica e científica entre outras. E Brasil e outros países do sul estão a capitanear esta guerra tentando ao mesmo tempo puxar outros irmãos como nós. Só que já que em Moçambique, mas principalmente na óptica dos funcionários do MCT responsáveis pelas bolsas, esse esforço é “meaningless”; agradecemos o gesto com circo deste jaez! Lançamos um concurso e esquecemos; acordamos tarde e anunciamos as classificações há dias do início das aulas, para coroar, não fornecemos informação pertinente aos concorrentes e são surpreendidos com a informação de que precisam urgentemente de desembolsar US$ 2-500-00 para poderem voar a Brasil e o Estado nem está ai...! Do MCT, ninguém está, o chefe está de férias e incontactável; pior, ninguém mais sabe do assunto, a não ser ele!

2. O MINISTRO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA PODE SER VISTO COMO UM DIRIGENTE QUE NÃO TEM CONTROLO SOBRE O PELOURO QUE DIRIGE. E em política e na vida, “não basta que a mulher de César seja justa, é preciso que também pareça”

Como foi possível deixar este texto rolar por tantos dias sem nenhuma reacção que até podia ser num jornal local ou no sítio do Ministério? Onde andam os assessores de imprensa e comunicação? Quais são os seus Termos de Referência afinal? O que fizeram quando viram ou leram este texto e souberam desse problema? O assunto já é do domínio público, será que se preocuparam em informar não só os directamente visados mas também o grande público? De que forma?

A) Afinal, Assessoram o quê esses senhores?

B) Este chefe que desde que saiu de férias até hoje não voltou (o que é perfeitamente compreensível e está no seu direito gozar férias), afinal não delegou responsabilidades a outra pessoa, ou só ele é que sabe, como é comum em Moçambique, onde, às vezes a máquina funciona com a presença de um chefe, porque só ele sabe como fazê-la funcionar!

C) Um assessor de imprensa sério deveria ter notado e interceptado este texto há muito. E não precisa ser feiticeiro para rastrear toda a informação acerca de um determinado ramo de actividade, neste caso MCT. Há muitas formas disponíveis e tecnicamente viáveis para que um assessor SAIBA TUDO SOBRE O SEU MINISTÉRIO LOGO PELA MANHÃ A PARTIR DO SEU TELEMÓVEL!

D) E a primeira coisa seria mesmo reunir e esboçar uma espécie de resposta/clarificação da situação, os contornos por que se cose o assunto e as acções levadas a cabo pelo Ministério e Ministro para lidar com ele.

E) Mas não, os senhores assessores, preocupados com “outras questões importantes”, pensaram que o assunto é para miúdos frustrados; bastasse que o Ministro não soubesse menos um trabalho para eles. Era imperioso que o Ministério viesse a público esclarecer esse assunto, fazendo o uso dos mesmos canais ou melhores que este, para divulgar a sua resposta; a sua versão de factos. Não basta ser jornalista (da velha ou nova guarda) no activo (fazendo a assessoria às escondidas) ou no inactivo, mas frequentando com regularidade o bar e a esplanada do SNJ para ser visto e “influenciar” os colegas para “ “verem o que escrevem sobre o seu chefe” para se ser um assessor de imprensa. Essa não é assessoria de imprensa. É pleo contrário, FOFOCA.

A Assessoria de Imprensa exige um trabalho sério, com objectivos corporativos bem definidos e um calendário de actividades claro. Não basta subsidiar visitas de campo a jornalistas e fazer lobbies nos meandros jornalísticos, para que o Boss sobressaia muitas vezes, para se considerar bom assessor. Há muitos ministros e dirigentes neste país, com bons assessores de imprensa e comunicação, que não precisam de aparecer em tudo o que é evento para tirar a foto, inclusive na inauguração de uma simples Internet Café!

3) QUEM CALA CONSENTE E A HISTÓRIA REGISTA

O comportamento dos assessores de imprensa e comunicação do MCT pode tornar a vida política do Ministro da Ciência e Tecnologia muito complicada exactamente pela sua omissão ou inacção em relação a capacidade de comunicação e satisfação de vários públicos. Afinal, ser Assessor de Imprensa e Comunicação de um Ministério implica saber comunicar com vários públicos, principalmente com o grande público, através de provimento de canais de comunicação apropriados e eficazes, através dos quais o povo fica a saber o que o Ministério está a fazer, como e porque o faz e quais os resultados que se esperam, para além de, regularmente consultar esses mesmos públicos para saber o grau de satisfação com os serviços prestados, por via de inquéritos apropriados. Em situações como a que despoletou esse debate, os assessores de comunicação deviam aconselhar o Ministério a dar alguma satisfação. A isso se chama prestação de contas e responsabilização; accountability em inglês, essa é uma das principais funções de Comunicador de uma instituição como MCT: promover e gerir a boa imagem da instituição bem como criar mecanismos de prestação de contas e de boa governação através da comunicação e informação a vários públicos: parlamento, povo, doadores, sociedade civil e outros grupos de interesse. E o que o que os senhores do MCT acabam de fazer é exactamente o oposto. Em governos sérios, alguém (ou alguns) devia(m) cair!

4 CUIDAR DA IMAGEM DE UM GOVERNO NÃO É FÁCIL

Esta secção é geral: Bayano Valy já falou disso e não voltarei a repisar. Em Moçambique temos tudo a acontecer como o Diabo quer. Sem regras. Os cidadãos usam o brasão, a bandeira como querem; inclusive a figura do Presidente da República. Vi há poucos dias um conjunto de capulanas com a cara do Presidente da República a venda numa das lojas do país.

Está cada vez mais difícil distinguir o verdadeiro brasão do falso; as verdadeiras cores da nossa bandeira doutras parecidas! Enfim, carece este país, de um quadro legal para regular os padrões de identidade das instituições do Governo. Por exemplo, não sabemos qual é a letra oficial estabelecida para a redacção de toda a documentação no Ministério da Ciência e Tecnologia: Arial? Que tamanho? Quando pode se usar o papel timbrado? – já vi um funcionário a usar papel timbrado de um ministério como garantia para contracção de uma dívida. Quando usar o brasão ou a bandeira? Quem deve usar os modelos de apresentação (templates) do Governo? Quais as cores da nossa bandeira; aliás, qual é a sequência das cores (cymk) e palete? Qual é o tamanho mínimo e máximo que os logotipos do Governo devem levar e em papel de que tamanho? Como devem ser identificados os carros do Governo? Devem levar o timbre de ESTADO ou matrícula rebitada ao lado?

Por último: é permitido que um cidadão costure e ofereça bandeiras nacionais às esquadras? Ou que um empresário ofereça motorizadas à Polícia da República de Moçambique? Ou um empresário organize um Natal Polícia numa cidade? Onde está a integridade do estado aqui? E onde está a identidade? O que diferencia um estado de uma entidade não governamental, do tipo ONG?

Remate:

Foi por esses e outros tipos de (des)organização que numa destas vezes, a nossa selecção de futebol, Mambas, levou consigo e pôs a tocar o Hino Nacional da Autoria do Falecido Maestro Chemane (Viva Viva a Frelimo) numa altura em que já estava em vigor o novo (Pátria Amada).

Adenda:

Comentário de um dos afectados:

"Eu sou um dos bolseiros que ganhou esta bolsa, e de factro é uma vergonha.Tem colegas que já avançaram com seus proprios meios para o brasil e o que encontraram lá não foi bonito:1 - A universidade n os aceitou pois n tinha nada comprovado k de facto o governo brasideiro deu bolsa pk o MCT não mandou a lista dos bolseiros para lá.2 - O CNPq não pode dar bolsa pk o MCT não mandou a lista dos nomes dos selecionados.3 - So Hoje dia 10 é que o Mct mandou os nomes, e deve esperar até ter resposta do CNPQ, isso pk o embaioxador do brasil teve que intervir, pois os 10 alunis ja est~ºao passando fome no brasil."

Quarta-feira, Março 04, 2009

Curiosidades de Accra, Ghana

Estive recentemente (semana passada) em Accra, Ghana. Lá fui conhecendo uma e outra coisa. Mas ficou na retina e memória, duas coisas importantes:

1. Ghana, com mais de 50 anos de independência, continua a ser um país onde o debate de ideias, o espaço e debate públicos são bem vivos e saudáveis. Todos os seus 3+ canais televisivos iniciam as suas edições matinais com uma das seguintes rubricas: (a) revista de imprensa - Ghana tem mais de 30 jornais diários impressos, para além de electrónicos e um número que não me recordo de semanários. A maioria desses jornais tem sua própria gráfica para imprimir jornal e um domínio de internet independente; (b) programa matinal (breakfast show) onde debate-se o "estado da nação". Contráriamente ao nosso, o estado da nação ghanês "normalmente não está bom". Há sempre um e outro aspecto por melhorar ou aprimorar. O debate deste estado da nação, leva nada menos que 2-3 horas, com convidados de todos os sectores da sociedade. Pel menos lá, os deputados de tods as bancadas falam por sua conta e risco e sempre que começam a falar põem claro em nome de quem estão a fazê-lo e (c) análise da imprensa, comentário do que se escreveu na imprensa e como se procedeu; uma espécie de motitoria permanente das ditames deontológicos. Estamos a falar de um país com mais de 50 anos de independência.

2. O debate sobre os heróis não acabou. Aquando da minha estadia, estava ao rubro o debate sobre a heroicidade de Kwame Nkrumah, fundandor da nação ghanesa: vejam o que é possível em um país democrático! Há um consenso de que Nkrumah foi sim o libertador da pátria, Primeiro Presidente de Ghana Independente e inspirador das gerações. Porém, a sua política socialista dos anos 60 e a purga feita aos seus detractores no "auge do socialismo" - à semelhança de outras "colónias socialistas" - é até hoje revisitada e alimenta em grande o debate sobre o impacto do legado dos "nossos heróis" nas nossas vidas de hoje.

Enquanto que aqui, quando se pergunta a um Ministro,  perante as câmaras de TV onde (lugar exacto) é que Mondlane morreu, ele fica visivelmente nervoso e não consegue responder! Quando se escreve algo que questiona a actual versão sobre os verdadeiros anos do Partido Frelimo, alguém diz é debate falso e logo cataloga os seus promotores!  Mas noutros países africanos, este debate ocorre; não para denegrir a imagem dos heróias, antes pelo contrário, para sim buscar consensos fortes sobre a personalidade que se pretende venerar ou reconehcer. E o mais interessante é que o recém-eleito presidente instituiu ou vai propor a Assembléia da República a instituição do dia 24 de Fevereiro (dia em que o Governo de Nkrumah caiu, golpeado) como como a data do Ossagyefou Kwame Nkrumah. E nisto, há um forte consenso que Ele foi sim o fundador da nação juntamente com os outros Big 5.

Por últmio, uma curiosidade:

No Mausoleu de Nkrumah, há um grande jardim com várias árvores plantadas por várias personalidades que pisaram aquele solo desde 1957. Uma destas árvores foi plantadas por Robert Mugabe, Presidente da República do Zimbabwe, que em Julho de 2007, aquando da Cimeira da União Africana, plantou lá uma árvore. Só que ela não desenvolve; não cresce. Os jardineiros asseguraram-me que ela é regada todos os dias como as outras. Porém, quatro meses antes passaram por lá o filho de Marcus Garvey e Jesse Jackson que também plantaram a sua. As imagens abaixo falam por si. Comparem as árvores e o seu estado de Desenvolvimento. Cá por mim, estive a pensar: será que é mais uma vez a mão dos ocidentais que não faz crescer a árvore de Mugabe ou foi por instigação de Gordon Brown, primeiro-minitro britânico que oficiais Ghaneses tiveram que oferecer a Mugabe, uma planta difícil de crescer!?