'Entre O Mar e a terra'. Novo Livro do Professor Rafael da Conceicao. Comentarios de Joao Nobre, Antropologo e Docente da UP - Maputo

 
Entre o mar e a terra: Situações identitárias no Norte de Moçambique

“Entre o mar e a terra: Situações identitárias no Norte de Moçambique” é o título do livro de Rafael da Conceição, com prefácio de Carlos Serra e posfácio de João Paulo Borges Coelho, a ser publicado pela PROMÉDIA no dia 17 do mês corrente às 18 horas, no Centro de Estudos Brasileiros.

No prefácio do livro, Carlos Serra afirma que é “entre o mar e a terra [que] se localiza geográfica e simbolicamente este belo livro”. Sou, então, tentado a posicionar a escrita deste livro nas margens, na liminaridade entre uma escrita académica, e uma escrita que propõe reivindicação de cidadania e manifestação de diversidade cultural e identitária.

Rafael da Conceição escreve sobre identidade, no seu sentido processual, como “um conjunto de formas de ser, de se pensar e de ser pensado”. Identidade construída e negociada nos contextos onde se desenrolam os processos de resistência ao Estado-Nação observados, descritos e interpretados neste livro. Mar e terra. Sociedades costeiras situadas(?) na liminaridade, entre o mar e a terra. Povos social e geograficamente “intermediários”.

Combinando diversas abordagens da Antropologia e da História, o livro mostra a difícil, mas bem conseguida, apreensão de processos identitários das sociedades costeiras de Cabo-Delgado, num contexto histórico de construção de um Estado-Nação e de uma identidade nacional em Moçambique. Identidade nacional. Situa-se aqui uma das problemáticas levantadas no livro: comunidades costeiras singulares e construção de uma identidade nacional. A relação é de conflito com o Estado que, segundo o autor, tendia a marginalizar as comunidades costeiras islâmicas.

Esta relação de conflito é vista numa perspectiva que parte de fundamentos económicos, históricos e culturais das sociedades costeiras analisadas. Assim, o político emerge numa combinação que resulta na tese de que existe uma singularidade costeira em Cabo-Delgado, fundamentada em referentes de ordem Histórica, nos fundamentos económicos, e nos referentes ideológicos e culturais. Esta singularidade, por um lado, e os fundamentos do Estado-Nação por outro, é que originam os problemas ou conflitos nas relações entre o Estado e as sociedades costeiras.

Neste livro, a cultura, a história e os processos de produção e reprodução social das sociedades costeiras de Cabo-Delgado são analisados, com o cuidado de diferenciar essas sociedades das sociedades continentais do interior, fundamentalmente agrícolas. No entanto, não se cai no equívoco de considerá-las indiferenciadas entre si, dado o “carácter abstracto da noção de sociedade costeira” reconhecido pelo autor.

No final da leitura do livro, sou tentado a situá-lo não nas margens, mas no centro do debate sempre actual sobre os processos identitários em Moçambique.

João Nobre
Agosto de 2006


Dados Biográficos do autor

António Rafael da Conceição é Doutor em Antropologia e Sociologia do Político. Formou-se na França, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), e na Universidade de Paris VIII. É, desde 1993, Professor na UEM tendo assumido as funções de chefe do Departamento de Arqueologia e Antropologia (DAA) entre 1997 e 2000. Foi director de Estudos e Projectos no Ministério moçambicano da Cultura, Juventude e Desportos (1984 - 1998); Entre 1995 e 1996 trabalhou para as Nações Unidas em Angola, em programas de Promoção Social. Em 2000 foi investigador convidado do Centro de Estudos da África Negra (CEAN) de Bordéus, França; em 2001 foi investigador-convidado do Instituto de Ciências Sociais de Lisboa (ICS); em 2002 foi Professor-convidado da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB), Espanha. Rafael da Conceição é actualmente professor e investigador do Departamento de Arqueologia e Antropologia da FLCS-UEM. Posted by Picasa

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O tempo da comunicação

PENSAR NA PAZ SABENDO O QUE FAZER: ENTRE O VAZIO DAS PALAVRAS E O BELICISMO, A TERCEIRA VIA

Gwaza Muthini, na forma como a conhecemos hoje é um BLUFF HISTÓRICO.