Terrorismo: 2 discursos

O artigo que se segue é da autoria do Sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, publicado no jornal Brasileiro, Carta Maior. Dada a sua importância, gostaria de partilhar com os colegas esta brilhante forma de ver o terrorismo.
À todos, um bom proveito.


Como é próprio dos fenômenos importantes nas sociedades democráticas, há dois discursos sobre o terrorismo: o conservador e o progressista. Específico do terrorismo é apenas o fato de o discurso conservador ser completamente dominante. Eis os traços principais deste discurso: “terroristas” são terroristas, ou seja, as definições oficiais de terrorismo são as definições “naturais”, óbvias; o terrorismo nunca teve êxito; os terroristas são nossos inimigos e como tal devem ser tratados: a sua violência deve ser enfrentada com a nossa violência; não tentar compreender o terrorismo para além deste quadro é ser cúmplice com ele.
O medo e a indignação causados por atos de violência contra a vida de pessoas não diretamente envolvidas em qualquer conflito armado e a unanimidade dos critérios de reportagem e de análise nos grandes meios de comunicação social fazem com que passem despercebidas as muitas fragilidades do discurso conservador. Primeiro, há um debate jurídico-político sério sobre o que é o terrorismo. Por exemplo, o terrorismo restringe-se à violência contra a vida ou inclui também a violência contra a propriedade?
No segundo caso, muitos movimentos sociais, do Greenpeace ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, poderão ser considerados terroristas. O terrorismo restringe-se ao uso da força ou estende-se também à ameaça do uso da força? No segundo caso, a publicação de um documento pode ser um acto terrorista. O terrorismo é uma prática exclusiva de grupos políticos ou também pode ser praticado pelo Estado? Neste último caso, são terroristas muitos dos atos violentos do Estado de Israel contra palestinos, tal como o foram o genocídio da população maia da Guatemala nos anos 80, para já não falar da recente destruição da cidade de Falluja, no Iraque, pelas tropas norte-americanas.
Segundo, quem, em que tempo histórico e com que critérios afere o êxito ou o fracasso do terrorismo? Como compreender que os líderes terroristas dos movimentos de libertação nacional tenham sido recebidos com estrondosos aplausos na ONU ou que o terrorista Nelson Mandela tenha sido galardoado com o Prémio Nobel da Paz?
Estas e outras questões abrem espaço para o discurso progressista sobre o terrorismo, o qual, em meu entender, não deve limitar-se a criticar o discurso conservador. Deve apresentar alternativas analíticas e políticas.
Primeiro, a violência política contra cidadãos é um ato político extremo que na grande maioria dos casos responde a atos políticos extremos do “inimigo”. Desde há muito, mas sobretudo desde o fim da segunda guerra mundial, a humilhação do mundo islâmico tem sido extrema, culminando agora com a invasão do Afeganistão e do Iraque. Enquanto não isolarmos os “nossos” extremistas não podemos isolar os “deles”.
Segundo, o isolamento dos extremistas só é possível através do aprofundamento democrático e do multiculturalismo progressista, tanto em nível nacional como internacional. Extremistas haverá sempre; importante é isolá-los, quer de um lado quer do outro, exigindo que se dê às políticas de cooperação e de interculturalidade genuínas a oportunidade de mostrarem a sua eficácia.

Terceiro, nenhuma oportunidade deve ser desperdiçada para quebrar a reciprocidade perversa dos extremismos. Neste contexto, pergunto-me se o governo português, por exemplo, não estará a desperdiçar uma dessas oportunidades ao decidir enviar agora 150 militares para o Afeganistão. Terão os portugueses algum modo de saber se estão com isso a ser expostos a algum risco? Não deveriam ter o direito de se pronunciar sobre ele? Muito provavelmente a grande maioria dos que morreram no metrô de Londres andaram nas ruas a protestar contra a política de Blair no Iraque.

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