Falacioso, Injusto e Criminoso!

Ou, Da necessidade de informar com clareza
O texto que se segue não é meu. É da autoria do Canal de Moçambique, um jornal via-fax e com a página na internet. O meu comentário vem depois:

Números do hospital psiquiátrico do Infulene são esclarecedores
Quantidade de “loucos” aumenta na governação de Armando Guebuza

Os dados de pacientes que procuraram a cura naquela unidade sanitária vocacionada à Saúde Mental durante os primeiros seis meses deste ano, quando comparados com os do mesmo período do ano transacto, indicam uma subida de mais de 500%.
Maputo (Canal de Moçambique) – Desde que Armando Guebuza ascendeu a chefe de Estado o número de dementes cresceu de forma exponencial no país de acordo com dados do relatório semestral do Hospital Psiquiátrico de Infulene (HPI), por sinal o único hospital especializado em Saúde Mental, em todo o país. Os números indicam que a procura de tratamento junto daquela unidade sanitária aumentou drasticamente nos últimos 12 meses.
O referido relatório, agora na posse do «Canal de Moçambique», indica que o HPI recebeu e internou 1.160 doentes mentais nos primeiros seis meses deste ano, contra os 348 do mesmo período do ano passado. Dos internados no corrente ano 577 tiveram alta, contra 198 no mesmo período em referência do ano passado. Quanto a consultas externas, foram, no total, 3.566 pacientes que procuraram os serviços do Hospital Psiquiátrico do Infulene nos primeiros seis meses de 2007, contra 2634 do mesmo período de 2006.
A falta de médicos especializados é um dos problemas que enfrenta este hospital. Trabalha com apenas 3 médicos psiquiátricos, 3 psicólogos e 3 técnicos de psiquiatria, entre moçambicanos, portugueses, brasileiros e cubanos. De recordar que o Hospital Psiquiátrico de Infulene é o único do país, havendo apenas na cidade de Nampula um centro de saúde para dementes.

Ufff!
A notícia fala sobre o crescente índice de demência no país, e, curiosamente, estabelece uma relação com a Governação de Armando Guebuza, Presidente da República de Moçambique. Ou seja, para o jornalista, existe uma relação intrínseca entre a Governação de Guebuza e o crescimento dos índices de demência no país. O Jornalista, autor do texto, quer mostrar que, desde que Armando Guebuza entrou no poder e formou o seu governo, muitos moçambicanos estão a ficar malucos, procurando por isso ajuda médica no único hospital psiquiátrico do país, o Hospital Psiquiátrico do Infulene em Maputo.
Isso é grave, injusto e falacioso. O tipo de falácia empregue neste texto chama-se "
non sequitur", ou "não há implicação".
Este tipo de falácia é um dos casos mais engraçados, pois representa em geral argumentos que têm um certo "cheiro de insanidade" ou, no mínimo, uma desculpa esfarrapada. A falácia ocorre quando não há conexão lógica entre as premissas e a conclusão. Ou seja, não é possível provar que a Governação de Armando Guebuza seja responsável pelo (surto) de demência no seio dos cidadãos deste país. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma é de natureza psiquiátrica e outra política.
A gravidade dessa notícia reside no facto de se pretender fazer passar a ideia de que Armando Guebuza e seu governo são responsáveis por todos aqueles que enlouqueceram desde 3 de Fevereiro de 2005 até hoje (que não são poucos; mais de 5.000), incluindo seus familiares e todos aqueles afectados pela doença desses indivíduos. Isso é igualmente injusto.
Inferências desse tipo embaraçam-me. Era bom que os autores de textos desse tipo reflectissem para além do cómico.

Comentários

ESM disse…
bela observação, egídio. isto é irresponsável e estranho, pois o canal de moçambique tem sido de uma forma geral criterioso na informação. isto é uma violação do nosso direito à razão.
Egidio Vaz disse…
Obrigado.
De facto também é preocupante. Não só pelo conteúdo e esforço que o jornalista empreendeu para nos "mostrar" essa ligação, como também por uma outra razão também preocupante:
É que, se o ritmo manter-se,em dez anos da Governação de Guebuza, acabaremos todos nós por ficarmos malucos.E eu nem quero pensar nisso!
Anónimo disse…
Caro Egidio, ainda bem que pusesto o guiso ao gato.E curioso que eu e meu colega de trabalho comentamos a respeito, agora que vi no teu blog estou perto de chegar a conclusao que: O jornalista soube identificar e narrar o problema: A subida de doentes no hospital psiquiatrico. Mas ele entra no mato na parte cientifica da coisa, a PROBLEMATIZACAO. Como resultado, nao ha sincronia entre o problema, seus argumentos e a conclusao. Sergio Vip
Egidio Vaz disse…
Isso acontece muitas vezes com jornalistas do "Canal". E desta, fê-lo mal.
Leonardo Vieira disse…
Isto é simplesmente patético!!!
Acredito que deve haver por ai muita coisa que piorou com a governação do PR (como o mesmo paiol explodir 2 vezes em menos de 6 meses, por exemplo), mas relaciona com a demêcia...
Tenham a santa paciência!

LV
Egidio Vaz disse…
Isso mesmo. É o extremo.
tiago disse…
Perfeitamente injusto o artigo...infelizmente é destas coisas que vive o jornalismo.

Parabéns pelo blog!
Caro Egidio...

A coisa está tão ridicula que até esse FACTO pode até ser derivado do "bom" trabalho (sendo simpático...apenas considero que alguma coisa têm sido feita....pouca mas alguma) de alguns sectores do governo do guebas...

Porque poderia muito bem significar que o MISAU decidiu recolher os "loucos" perdidos por aí (que por acaso acho que são cada vez menos) e tê-los colocado no Hospital. Ou seja, esse FACTO poderia muito bem ser interpretado ou ser reflexo dum bom trabalho do rei dos patos...

São casos assim que onde quem escreve deveria se responsabilizar...

Mas já agora, e aproveitando...as explosões no paiol certamente deixaram muita gente com problemas psiquiátricos......

Enfim
PENSEM NISSO

TSIN TSI VA
Leonardo Vieira disse…
Bem dito Tsin tsi!
Mas usando os poucos conhecimentos de psicologia que tenho, diria que o paiol poderia causar ( e causou imenso) stress pós-traumático nos adultos, e irremediáveis traumas nas crianças órfãs!
Quanto à recolha, devo confessar que tambén tenho notado a diminuição nas nossas ruas (espero que agora trabalhem nos idosos e mendigos)!

LV
Anónimo disse…
Sem querer defender o articulista do "Canal", parece que estamos face a uma situação em que, perante uma realidade complexa, que pode ser perfeitamente aleatória, quanto mais sofisticada for a explicação que alguém tentar dar melhor será! Esta forma de raciocinar até impressiona os mais modestos, que seguem regras de raciocínio controláveis para chegar a conclusões verificáveis! É muito comum esta forma de ver o mundo de forma supersticiosa, mesmo em pessoas bem treinadas a fazer raciocínios formalmente correctos.
symon disse…
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