Os Jovens vão a Cheringoma

Ou, Hama Thai tinha razão: "nós jovens não somos de nada!"

Vai ter lugar brevemente e em Cheringoma, a segunda Conferência Nacional da Juventude Moçambicana.

Não estou bem informado sobre a agenda, mas parece que será para avaliar passos até agora dados à luz da Declaração de Chokwe, um documento saído da primeira conferência nacional da juventude tida em Chokwe.

O encontro é patrocinado pelo Governo através do ministério de tutela bem como dalguns “amigos dos jovens”, entre empresas e organizações nacionais e internacionais.

Está na moda agora: Sempre que uma organização pretende reflectir, organiza “excursões” para o “interior” de Moçambique; de preferência para lugares turísticos como praias, parques e reservas de animais bravios ou mesmo acampam em lugares baldios e inóspitos! Para um país onde se prega austeridade para fazer face a crise e à crescente escassez de recursos, já se imagina quão dispendiosas têm sido esses pic-nics.

Sim, a Juventude moçambicana, aliás as lideranças juvenis nacionais não o são na verdade. Esses, não passam de um conjunto de almas ambiciosas pelo poder e recursos de poder, mas que infelizmente, por tão atabalhoadas que estão, não conseguem vislumbrar formas e mecanismos eficazes para alcança-los. Com discursos frívolos e vazios mas de coração efervescente, acabam assim, envergando pelo seguidismo, pelo discursismo e pela procura frequente de mecanismos que visam, mas que na verdade não passam disso.

Não vejo nos dirigentes juvenis de hoje, nenhuma ideia original; muito menos arrojo.

Sim, os jovens vão a Cheringoma avaliar o grau de implementação da Declaração de Chokwe. Para começar, poucos são os jovens deste Moçambique que conhecem essa declaração, muito menos o que preconiza(va). Mas já lá vão eles avaliar o grau de sua implementação.

Os jovens vão a Cheringoma debater mecanismos que visão…sei lá o que. Mas de certeza não vão para coisas sérias. Vão acompanhar o ministro da Juventude e Desportos; vão ouvi-lo e também e acima de tudo, as lideranças juvenis, vão lá para lamentar, mais uma vez e como sempre nos habituaram.

Três factores estratégicos concorrem para o marasmo em que se encontra a nossa Juventude, por culpa dos seus líderes.

1. Alianças incestuosas

As nossas lideranças facilmente se cooptam por pequenos recursos de poder; aqueles que apenas resolvem momentaneamente as ambições sejam de grupo, sejam pessoais mas que a longo prazo se revelam incapazes de responder às expectativas dos demais. Por exemplo, contentam-se por ter um gabinete concedido pelo Governo, lápis e caneta e uma secretária; chaleira e outras bugigangas à troco da sua complacência perante tamanha falta de políticas públicas focalizadas para a Juventude. Para piorar, aliam-se ao poder político, seja ele da oposição ou do partido no poder, na vã esperança de obter facilidades.

Nas suas mentes, está erradamente claro e bem patente que no país, só se alcança algo mediante patrocínio político. Assim e por isso, para se ser Presidente do Conselho Nacional da Juventude tem que necessariamente beneficiar do apoio político da Frelimo. Eles dizem, ser membro da OJM!

Assim, as lideranças juvenis não trabalham. Passam o tempo todo a ver com quem se aliar; a quem namorar e como fazer com que as suas ideias (que não existem) passem rapidamente. Não admira porém que por falta de visão, acabam se imiscuindo em agendas alheias como iniciativas presidenciais, da primeira-dama e das famosas ferias desenvolvendo o distrito; qual excursão travestida em trabalho!

2. Preguiça mental, intelectual e física

As nossas lideranças são muito preguiçosas. Dificilmente pensam de forma estratégica, muito menos deixam os mais capazes exporem suas ideias. Preferem marchar por causas que desconhecem a trabalhar arduamente seja nos gabinetes, seja no campo, para a materialização da agenda que prometeram implementar. Por causa da sua preguiça, não procuram romper com o ciclo vicioso a que se encontram; não fazem nem o mínimo esforço de se tornar independentes; não estudam matérias nem advogam por causas. Limitam-se a espreitar no cofre do Ministério de tutela para ver o que de lá se pode tirar com menos esforço. Os outros, os que estão longe do centro do poder, também limitam-se em pedir mais apoio sem no entanto saber-se para quê.

Do ponto de vista das relações internacionais, as lideranças da nossa juventude são sim preguiçosas. Tão preguiçosas que não se internacionalizam, nem formam alianças capazes de advogar internamente causas nobres como a questão palestiniana ou zimbabweana; não são capazes de tomar posição perante questões como mudanças climáticas, boa governação ou políticas económicas. Apenas se limitam em requerer mais preservativos para alegadamente intensificar campanhas de sensibilização contra o HIV e Sida! 

3. Incultura política, défice de cidadania e falta de visão de futuro

Porque na realidade não sabem o poder que têm e a diferença que são capazes de fazer, as nossas lideranças se limitam aos ditames do sindroma TINA –there is no alternative!

Sim, porque não sabem ou acham difícil lutar, limitam-se em gravitar naquilo que é possível fazer. Tornam-se assim, reprodutores do sistema e das relações de poder vigentes, autênticas caixas de ressonância! Pior nisso é ouvir desses jovens dizer que o estado social e político em que vivemos coincidem com o que gerações que nos precederam com ele sonharam! Nunca vi tanto comodismo junto!

O nosso sistema de educação é tão domesticador que se torna difícil diferenciar entre o catecismo pregado nas igrejas e os curricula ora administrados em todos subsistemas de ensino no país! Os jovens são feitos para obedecer e não pensar; muito menos pensar por si. E, volta-e-meia, vem ministros falarem de auto-emprego, auto-estima e outros tantos autos…que ao longo da formação o sistema não foi capaz de inculcar.

Assim, mais uma vez irão os jovens em Cheringoma debater o estado de implementação da Declaração de Chokwe. Sim, levam também preservativos e cartazes para intensificarem a sensibilização na camada jovem (assim dizem) contra o HIV e SIDA.

E isso acontece longe do escrutínio dos jornalistas e de outros jovens críticos, que foram criteriosamente decantados da cúria decisória. Não foi por acaso que muitas outras organizações e associações juvenis foram excluídas desse bom safari.

Notas sobre Cheringoma

Cheringoma é um dos 128 distritos que compõem Moçambique. Pertence a Província de Sofala, centro de Moçambique. Tem como capital, Inhaminga. Foi durante muito tempo bastião da Renamo, tendo por lá permanecido até o final da guerra, em 1992.

Teve o seu primeiro administrador do pós-guerra nomeado por Afonso Dhlakama, à luz do acordo geral de Paz de Roma.

A sua capital, Inhaminga seria a segunda maior da Província de Sofala, se a Renamo não se dedicasse à sua destruição ao longo dos anos que a ocupou.

Hoje, Cheringoma é dos distritos de difícil acesso. Graças a estrada centro-nordeste, ainda se pode chegar com alguma facilidade.

Por lá passa o parque Nacional da Gorongosa, o maior de Moçambique, que atrai muitos turistas e se calhar, motivo de cobiça para os jovens que lá vão em conferência.

Economicamente, Cheringoma está a recobrar-se da destruição e estagnação. A sua capital denota um grande carecimento económico, apesar de ainda necessitar de mais investimento. Tem água, luz e serviços de telefonia móvel e um comércio razoável.

Produz algodão, girassol e gergelim, mas os seus camponeses enfrentam grandes problemas de comercialização.

Porém, para efeitos da Conferencia da Juventude que irá se realizar, transportar delegados de todo o país para Inhaminga não será tarefa fácil. Vai sim, ser uma conferência muito dispendiosa porque tudo ou quase tudo deverá vir da Beira, segunda cidade do país ou de Maputo, donde vos escrevo, agravando assim os custos de operação.

Comentários

Noa Inácio disse…
Posso Acrescentar?

Em Setembro de 2007, jovens de todo o pais reuniram-se em Maputo na primeira conferencia sobre o SIDA, donde foi produzida um Compromisso dos Jovens no Combate ao SIDA. E porque estou muito convencido que os escolhidos para Cheringoma nao estao a par, nao sabem disso, queria informar, para nao cometerem o erro de desenhar uma outra Declaracao de Compromisso. Oh! Ainda nao se conhece a Declaracao porque os organizadores desta excursao, ou desculpa, desta Conferencia, ainda nao constituiram o grupo para disseminar o compromisso. Olha pessoalmente lhes fiz lembrar.

Podia dizer mais, mas para quem? Quem discute esses assuntos somos nos eu e tu que estas a ler o comentario, por sinal, fomos excluidos de Cheringoma.

AFINAL O QUE E SER JOVEM? N. Inacio
Pessoalmente não teria tempo para lá ir. POr outro lado, estou bastante desapontado no seguidismo a que algumas lideranças juvenis embarcaram.
Não estou a favor desta conferência em Cheringoma, mesmo porque com dinheiro dos outros, impunha-se a necessidade de maximizar os efeitos advenientes desta conferência. Ora, mais se irá gastar do que produzir.
A minha experiência em organização de eventos desta natureza manda dizer que afinal, mérito desta conferência será o de ter acontecido. Só isso. O resto...hehe, discute-se.
Acho que está na hora de nós jovens vermos o país com outra inspiração.
Abraços a sensatez.
E.
Carlos Serra disse…
Tu Egídio, iué! tá menha!!!!!! Vou dar-te no mataco vais ver! Agora estás armado em apostoleiro da desgraça??? Não te zangues comigo, com quase 61 "anitos" ainda sou jovem, não achas? Abraço!
Em 2003, fiz o trajecto Beira-Inhaminga via Dondo, num troco de cerca de 200 km, em mais de 6horas de viagem. A estrada estava tao "bad" que tinhamos q andar a 30-40km/h.
E infraestruturas existentes?? Onde e' que esses camaradas jovens vao ficar? Em tendas? E qual e' o criterio que dita os locais de realizacao desses "barbeques"? Ha' algum tempo alertei sobre a "peste suina" dos seminarios e conferencias quando se comeca a aproximar o fim do ano e um ponto que citei foi a escolha de locais onde se pode gastar a maior quantidade de dinheiro, desde transporte, acomodacao, etc.
E' assim como vai um dos paises "mais pobres" deste planeta!
É Mc Carthy, estamos mesmo mal. Abraços.
Anónimo disse…
Eu tenho uma dúvida que não sei se é so minha ou de muitos outros que não tenho oportunidade de trocar impressões com eles. Sempre se disse/reportou sobre homens armados em Cheringoma que criam instabilidade e insegurança ao nível daquela zona, e sempre apelou-se ás populações locais para que tivessem cuidado com os BANDIDOS ARMADOS. agora vai-se realizar a Conferência numa Zona tão insegura (Como se diz sempre, sempre na véspera de eleições)como esta. A inquietação é se estes HOMENS ARMADOS sentiressem-se ameaçados pelo avalanche de jovens bem nutridos que vão sair da capital, e começarem a atirar contra eles e serem, mortos quem vai se responsabilizar por isso? Se Cheringoma é uma Zona insegura e o Governo leva jovens para lá já garantiu os seguros de vida para estes jovens? Espero que isso não aconteça, porque sei que não há seguro de vida para nenhum destes seguidores, o que o Governo virá dizer (Como sempre vem dizendo quando mesmo são entre eles) FOI UMA PERDA IRREPARÀVEL. Espero que as possíveis perdas sejam reparáveis.

Mais não disse
Chacate Joaquim disse…
Esses Jovem me irritam por serem ventanias, fata de autonomia racional aposto que há um papa da RENAMO ou da FRELIMO empurar os jovens para Chiringoma.

Também não fui convidado! Esperemos pela nova Declaração desta vez de Chiringoma

Abraços Egídio
Hehe, Cheringoma não trará nenhuma novidade. Porque os jonvens não levam agenda própria. Quem tem a agenda é o Ministério de tutela.
É como mulemba. Só sabe o que acontece quem estiver no lugar dos aconteciemntos. O resto será barulho.
Abraços Chacate.
E

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