Uma notícia escrita ao contrário

A propósito dos "Cães" que "removem túmulos e devoram corpos" em Nhamatanda

A Notícia em causa diz que os "CÃES vadios estão a semear intranquilidade no distrito de Nhamatanda, em Sofala, chegando mesmo ao ponto de remover e devorar corpos sepultados nos cemitérios, sobretudo os da vila-sede. Relatos de alguns moradores indicam que os cães até circulam por diferentes bairros periféricos da vila de Nhamatanda com ossadas, sobretudo de corpos de menores."

Para começar, esse facto não deve provocar intranquilidade mas sim preocupação por parte das autoridades que lidam com os cemitérios, e da população no geral. Mas mais a frente veremos que esse não é o problema de cães vadios e sim de próprias pessoas, cujo curativo proposto pelas autoridades é tão estranho à medida que ignora uma prática tradicional recorrente entre cidadãos da etnia Sena (e eventualmente as outras).

Mais a seguir, o Administrador de Nhamatanda, Sérgio Moiane diz que o cães estão a criar distúrbios daí que vai mandar recolher todos cães vadios e não reclamados para o abate.
E ainda, a notícia continua, reforçando a ideia de que os cães precisam de ser vacinados para que (a) se previnam da doença da ráiva e (b) as pessoas possam livremente circular até de noite sem temer a mordedura desses animais que rondam à volta de 8 mil, à nível de todo o distrito.

Para já, nenhuma das medidas propostas irão prevenir que cães livres da doença de raiva também possam exumar corpos de crianças no Cemitério de Nhamatanda (que eu conheço bem).
Depois, a notícia, na verdade é muito suspeita, pois no fundo o que queria enunciar não era necessáriamente a "maldade dos cães vadios" mas sim a campanha de vacinação de cães e o abate de todos cães vadios e não reclamados à nível do distrito de Nhamatanda.
Mas esse é outro assunto, que resulta da incopetência do jornalista. Voltemos a minha tese anterior.

Dizia que qualquer cão e até um porco pode "exumar" corpos de crianças e rece-nascidos de um cemitério qualquer em Nhamatanda porque entre os Sena (e provavelmente outros), as crianças de menos de 2 meses são enterradas por senhoras em sepulturas menos fundas.

Para já, nenhum homem que se preze acompanha as senhoras ao cemitério, apesar de, depois do enterro os homens também poderem ir reconhecer a tumba d@ faledi@. E pelos usos e costumes tradicionais, as sepulturas como dizia, são menos fundas; as covas são abertas à uma profundidade máxima de 60-70 centímeros (portanto, o comprimento de uma régua).
Os porcos e cães - que não precisam ser vádios - com seu focinho e patas, são capazes de alcançar esses bebes tão naturalmente, sem nenhum esforço assinaláve.
Adiciona-se a esse facto, a verdade de que a maioria dos cemitérios não é guarnecida; é mato cerrado ou aberto, apenas dedicado para sepulturas, o que faz com que qualquer um, incluindo as galinhas, cabritos e patos, também passem por lá, pois eles (os cemitérios) se encotram mesmo nas periferias de zonas habitadas.

O terceiro elemento a acrescentar é que o Administrador mentiu ao dizer que as pessoas já temem andar de noite por temer a mmordedura de cães vadios. Isso não corresponde a verdade e só serve para reforçar o seu plano para matar cães "vadios".

Porém, a verdade é uma: se se quer acabar com as ossadas humanas na Vila de Nhamatanda, urge rever a forma como as crianças são sepultadas, garantido que as sepulturas sejam suficientemente profundas para não serem alcançáveis tanto pelos porcos como por cães. E isso requer mudança de algumas das nossas práticas tradicionais.

E já agora, porque o jornalista não mencionou os porcos, que também são eximios nessa prática, mesmo antes de cães? Só pode ser pelo facto de o porco ser das carnes prelilectas dos nhamatandenses.

Comentários

Anónimo disse…
Creio que é necessário esclarecer a idade das crianças cujos enterros são dirigidos pelas senhoras, pois é prática para recém-nascidos até menos de 1 mês de vida e que ainda não está em contacto com "estranho" (os dias em que a criança fica dentro de casa e se isola da convivência dos demais, prevenindo de contactos que podem proporcionar doenças)
Esqueva
Egídio Vaz disse…
Obrigado Mbuya Esqueva. Irei rectificar imediatamente. Por não estar certo, por isso disse menos de 2. Na verdade, eram dois meses e não anos. mais uma vez, takhuta!
Nelson disse…
Em vez de “mexer” com práticas culturais de séculos que tal construção dum bom muro de vedação?
Julio Mutisse disse…
Egídio/Nelson, são práticas como o Kutxinga no sul do país que, apesar do HIV/SIDA custam a moldar aos dias que correm. Pergunto que medidas devemos tomar como povo para evitar as profanacões de que o Egídio fala aqui (ou a contaminacão com HIV/SIDA no caso do Kutxinga) sem MATAR o nós que subjaz da cultura?
Egídio Vaz disse…
Caro Nelson, todas as acções devem ser levadas a cabo juntas. Por um lado, vedarmos os cemitérios e transferir (como vai acontecer com o de Nhamatanda) para locais mais distantes das habitações. E depois "influenciar" para a mudança de comportamento. Pelo menos esta prática de sepultar recem-nascidos à baixas profundidades. Mas isto implicaria na divulgação, comunicação por forma a mobilizar as comunidades a perceberem o porquê dessa prática ser menos adequada aos nossos tempos.
Egídio Vaz disse…
O resto Muthisse, é puro oportunismo. Kutxinga agora é uma prática dispensável. A mulher viúva já pode escolher não me "meter" com nenhum cunhado; aliás, até pode se contratar um casal para fazer em nome da finada, ou mesmo o filho mais velho com sua esposa, num acto normal de relações sexuais. O problema nos dias que correm é a corrida para os despojos do finados!
Coisa completamente condenável.
Nelson disse…
Há um elemento que me parece ter escapado. Entendo que a prática manda que seja as mulheres a realizarem o funeral, oque não está claro é se covas com pouca profundidade faz parte das exigéncias da prática ou resulta do facto da cova ser aberta por mulheres que provavelmente não se esforçam lá tanto ou ainda pelo facto de se destinar a um recem nascido
Egídio Vaz disse…
As duas coisas meu caro. Irei convidar o mais velho, "Mbuya Esqueva" para dar algumas achegas ao que até aqui avancei.
Anónimo disse…
Acredito que os factos que já avançaram contribuam para o aproveitamento dos cães, pois para além de serem mulheres que participam deste processo, há outro factor importante: os corpos são enterrados em volto de capulanas, no lugar de caixões de madeira, tornando-os susceptíveis de vandalização por parte dos cães e de mágicos para fins obscuros.
Há que salientar a situação dos solos usados para os enterros, que são normalmente secos e em zonas altas, dificultando ainda mais a abertura de covas com maior profundida.

Esqueva

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