A propósito da promoção da cerveja: contra o fomento de mitos e da conspiração

Eu acho que devíamos entender o que se passa para tamanha descida do preço da cerveja. Fala-se agora de 3=100, ou seja, com 100 meticais obtém-se 3 garrafas de cerveja importada, como Castle Lite.
Para mim, vários aspectos podem concorrer para tal. Tentarei ser sucinto.

1-Dumping - A situação politico-militar pode ter evitado o transporte de bebidas similares de Maputo para outros cantos do país, criando um excedente. Para tal, deveremos saber qual foi o fluxo deste tipo de mercadoria nos últimos meses
2- FRIO ou Tempo impróprio, criando baixa da procura: o frio que se faz sentir pode desviar os consumidores a outras opções, com realce aos vinhos e bebidas espirituosas.
3-Fuga ao fisco: a fuga ao fisco principalmente dos importadores de cerveja tem efeito catalítico sobre o preço final. Assim, se tiver havido alguém que tenha introduzido quantidades assinaláveis de cerveja sem ter pago os devidos impostos, obviamente pode desencadear a baixa de forçando a 2M a seguir o exemplo. Combinando os pontos 1, 2 e 3 pode-se reforçar a ideia de se tratar de apenas um momento de crise da cerveja. Fica de resto por saber por quanto tempo.

Importa recordar as pessoas que este fenómeno não é novo em Moçambique.
Em 1998 houve em Tete um período de graça que durou 6 meses a um ano, em que a cerveja de origem zimbabueana era vendida na mesma proporção de hoje: 6 meticais para cada cerveja de 300 ml. A cerveja chamava-se BOLLINGER. Mas, como rapidamente pode se aperceber, tratava-se de uma forma de o fabricante “esvaziar” o estoque. Este pode também ser o outro motivo. A Bollinger, AFINAL TINHA APENAS mais três meses para passar do prazo.
Aliás, podemos também nos lembrar da cerveja Miller em Maputo nos anos de 2002-6. Esta marca americana entrou no mercado moçambicano e não vingou. Um ano depois, a Miller estava em “promoção”; uma promoção que se revelou como mecanismo de esvaziar o estoque, que já espreitava o fim do prazo: era “compra uma leva quatro”.

Com isso tudo QUERO REJEITAR A IDEIA CONSPIRATÓRIA SEGUNDO A QUAL a promoção da cerveja 3=100 visa desviar as atenções das pessoas dos aspectos mais importantes da nação.
Vou reforçar esta ideia aduzindo alguns traços sócia antropológicos já conhecidos.

1. Se o Estado ou a Frelimo (já que anima muito insultá-la nestes dias) quisesse desviar a juventude através do álcool subsidiava o fabrico de bebidas espirituosas de muito baixo custo tais como Knock Out, Tentação, Power, etc, já que está provado que é o tipo de bebidas mais procuradas, com maior eficácia e mais barato. Uma saqueta de Knock out ou garrafa de tentação é suficiente para fazer um jovem médio muito satisfeito, senão mesmo totalmente inebriado. Por mais que a cerveja esteja ao preço da tentação, dificilmente irá satisfazer as expectativas da esmagadora maioria que vêm em tentações como a solução mais eficaz para seus prazeres alcoólicos.
2. Foi reconhecendo este facto que por exemplo, que este tipo de bebida “desaparece misteriosamente” em momentos de alta tensão popular, muito por conta das ilações e lições tiradas nas manifestações do dia 5 de Fevereiro de 2008 e 1 e 2 de Setembro de 2010. Existem empresários que são pagos para, a partir da fonte (fabrica), comprar a totalidade de lote inteiro e guarda-lo e armazéns, privando assim o acesso deste “precioso líquido” pela juventude. Mas este é um trabalho que tem sido feito pelos serviços de segurança
3. Não existe uma correlação directa entre o baixo custo da cerveja e o desvio da juventude para com os assuntos do país. De resto, a juventude não é para o poder a grande preocupação seja ao nível da gestão do poder ou programático. O que estou a tentar dizer é que o governo (ou a Frelimo) não precisa esforçar-se mais para “distrair a juventude dos principais assuntos do país” uma vez que ela já está há muito distraída, monótona e amorfa, mais por conta da educação do que por indução a bebedeira. O fraquíssimo nível de consciência cidadã consubstanciado na apatia e seguidismo que caracteriza a esmagadora maioria da nossa juventude é disto exemplo eloquente. O QUE REPRESENTA MAIOR PERIGO AO PODER É A CONSCIÊNCIA DE CIDADANIA e a prontidão da juventude em engajar-se em luta organizada. A consciência e prontidão ganham-se com a educação; com o processo de amadurecimento de valores e de sentido de missão de uma classe, elementos que estão muito a quem da juventude moçambicana.
4. A FRELIMO (ou o Estado) não é tão burra assim ao ponto de subsidiar cerveja barata para ATÉ MEMBROS DA OPOSIÇÃO terem acesso.
a) Se o objectivo fosse a distracção da “juventude de assuntos do país”, a promoção de actividades recreativas e de eventos abertos seriam a MAIS VIÁEIS E eficazes uma vez que a juventude NUNCA RECLAMOU O PREÇO DA CERVEJA. Este nunca foi o problema

Concluindo
Neste pequeno intróito, tentei argumentar que a baixo preço da cerveja tem a ver com aspectos puramente de mercado e não políticos.
Para reforçar os meus argumentos trouxe dois exemplos similares: A Bollinger em Tete (1998) e a Miller em Maputo (2002-6).
Também avancei 4 prováveis motivos que de forma isolada ou combinada proporcionam o baixo preço da cerveja. Estes motivos são: 1-Dumping, 2- Inverno, 3-Fuga ao fisco, 4-Produto prestes a ficar fora do prazo, ou prestes a ser descontinuado, mudança de tecnologia de produção/introdução de um novo produto.
Eu também gostaria de encontrar esta promoção.

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