SOBRE A BESTEIRA


Em 1986, Harry Frankfurt, um eminente filósofo da moral e antigo Professor da Universidade de Princeton (EUA), publicou um brilhante ensaio intitulado "On Bullshit" [Sobre a Besteira]. No ensaio, Frankfurt fez uma distinção fundamental entre a BESTEIRA (BULLSHIT) e a mentira.

Contar uma mentira é um acto com um enfoque concreto. A mentira visa encaixar uma falsidade específica num ponto específico. Para inventar uma mentira, [o mentiroso] deve achar (ou estar seguro de) que conhece a verdade ou o que é verdadeiro. Mas alguém que fala besteiras, Frankfurt assevera, "não está nem do lado da verdade, muito menos do da mentira”. O seu enfoque não está nos factos, excepto quando quiser desviar a atenção sobre o que diz.

O enfoque das pessoas que falam besteiras é panorâmico ao invés de particular e específico, daí que estão mais à vontade para improvisar e fazer o jogo imaginativo.
Harry Frankfurt conclui que tanto as pessoas que falam a verdade como as que mentem são ambas indivíduos com uma clara noção sobre o que dizem, dos factos e da verdade. O que elas fazem é apenas escolher a posição que lhes interessa para defender os seus interesses.

Contrariamente, os que falam besteiras perdem qualquer ligação com a realidade pois não prestam qualquer atenção aos factos muito menos à verdade. Em virtude disto, Frankfurt assevera, que "os que falam besteiras são piores inimigos da verdade do que os mentirosos."

O maior perigo de dizer besteiras é o risco que os que as ouvem incorrerem em “desaprendizado”. Numa sociedade com baixíssimos níveis de consciência cognitiva, as besteiras são muito fáceis de processar do que as verdades, pelo que está sendo muito mais fácil assimilar besteiras que conhecimento real. Por exemplo, é muito mais fácil convencer alguém que é possível viver sem trabalhar e mesmo assim o governo lhe oferecer mensalmente o suficiente para viver do que convencê-lo que precisaria de três gerações de trabalho árduo para seus bisnetos se verem totalmente livre da pobreza. A besteira é amiga de cama da preguiça e de outros vícios improdutivos.

Referência

Frankfurt, H. (2017). On bulshit. [online] Disponível em: http://www.csudh.edu/ccauthen/576f12/frankfurt__harry_-_on_bullshit.pdf [Retido em 16 Maio 2017].

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