À METADE III: SOBRE O “LINHA ABERTA DA STV” E OUTRAS LINHAS ESQUECIDAS


O que aconteceu no debate Linha Aberta da STV da noite do dia 18 de Julho de 2017 não foi um debate sobre os dois anos e meio do mandato do Presidente Nyusi. Foi pelo contrário um julgamento preconceituoso da pessoa do Presidente Nyusi e sua governação. Para que fosse uma avaliação tinha antes que se discutir sobre como o Presidente Nyusi e seu governo encontraram o país. Questionar-se sobre o que havia, o que tinha que ser feito e o que não deveria ter sido feito, seja por mérito ou por demérito da sua governação.
Ora, o que havia era um país abraços com calamidades naturais; cheias que cortaram o país em três pedaços e manteve-o incomunicável por mais de trinta dias, logo no início do mandato; um país com metade dele sem energia eléctrica da rede nacional por mais de sessenta dias; uma calamidade natural a sul e norte do país com estiagem à mistura; cheias à mistura; Chitima chorando mais de 100 pessoas mortas por pombe envenenado.
Só quem não sentiu fome é que não reconhece o trabalho do INGC e o processo de reposição de víveres e outros processos de salvamento de pessoas e bens. Recordo-me de pontes, estradas destruídas por chuvas, localidades inteiras evacuadas e tanta gente desaparecida por conta das cheias. Isto tudo a televisão mostrou. E vimos. O país enfrentou um surto de cólera que matou centenas de cidadãos de norte a sul; chuvas que inviabilizaram início de projectos de investimento, de norte a sul. Foi tudo noticiado.
O país esteve abraços com o conflito pós-eleitoral que pôs de joelhos a economia nacional de norte a sul. Vimos isso tudo a acontecer, enquanto pedíamos paz e tranquilidade. Orações não faltaram. De permeio, o bloqueio internacional resultante das dívidas não declaradas ao parlamento. Foi isso tudo que o país teve que enfrentar, assunto por assunto, mês após o outro e superou. Morreram pessoas; paralisou-se a economia. Choramos. Lamentamos. Suplicamos para que a normalidade se repusesse. E aconteceu. E está acontecer, paulatinamente, mas sem cessar. Esses são os factos reais. Não fabricados, não imaginados. Mas por todos nós enfrentados.
E o que se fez? O que se fez foi concentrar esforços para a paz. Conseguiu-se. Iniciar o processo de negociação das dívidas. Está no processo. Conseguiu-se garantir que PROJECTOS de organismos internacionais como Banco Mundial e de todos parceiros de cooperação não parassem. E estão em curso. Todos eles. Conseguiu-se parar com a espiral de inflação. Há quem projectava que o dólar chegasse aos 100. Não conseguiram. Conseguiu-se garantir serviços mínimos. Salário, menos 13º mês. Mas o país não esteve paralisado.
Isto tudo o Presidente não mencionou no seu informe. Também não precisava. Todos os que podem ler este post, conhecem o país que o Presidente Nyusi encontrou em 2015. Não por imaginação ou por leituras difíceis. Mas por experiência própria.
Agora quando se diz que o país está de volta já ninguém se recorda onde estava. E já é bom que ninguém se recorde que esteve na iminência de parquear o seu carro por falta de combustível; ou que o pão subiria três vezes do preço; já é bom que já ninguém se recorde que Nampula, Pemba ou Lichinga e respectivos distritos houve lojas que viram produtos perecíveis apodrecer por falta de energia. É bom que ninguém se recorde que em diversos Morgues dos hospitais, familiares tiveram que enterrar precocemente seus ente-queridos por temer a decomposição de corpos. Isso já é bom que ninguém se recorde. Meu pai também não gostaria que me recordasse das vezes que não pôde tratar da minha sarna por não ter dinheiro para comprar desinfectante ou sabonete com propriedades iguais. Faz bem para ele eu imaginar que toda minha infância foi mil-maravilhas. Não é tarefa dele provar-me sempre dos sacrifícios que teve que superar para me ver hoje bem formado. Faz parte do trabalho dele; do seu maior orgulho: superar problemas e se possível fazer esquecer das mazelas passadas.
Temos um grande problema neste país que é a atenção selectiva. Escolhe-se os episódios menos bem-conseguidos para se extrapola-se a todo exercício governativo. E, na falta deles, recorre-se à fala, ao discurso. É bom que isso aconteça com gente saudável, tratada em nosso sistema nacional de saúde, livre de cólera ou outras doenças diarreicas, fruto do trabalho feito por esse mesmo governo, nessas mesmas condições difíceis. Bingo. É bom que se fale da inoperância do governo de Nyusi, num ano em que se regista a melhor produção agrícola dos últimos 20 anos, nessas mesmas condições. Uau! É bom que se fale da falta de trabalho do governo de Nyusi num país onde não há ocorrência de insegurança alimentar, mesmo com o fenómeno El Nino que pós de joelhos a Swazilândia e Namíbia! Isso é muito bom. Perfeito. É bom que se reclame enquanto se consegue conduzir de norte a sul em tranquilidade. E com combustível para viaturas ao longo de toda estrada. Tal como estava previsto, a estas alturas, não haveria combustível para ninguém. E ninguém até agora consegue explicar que milagre é esse de comprar combustível sem dinheiro.
Bem, cada cabeça é uma sentença. Uma análise de governação, ainda de tão poucos meses como o do Presidente Nyusi, sem memória e consciência históricas não passa de um projecto de lavagem cerebral e de embrutecimento da sociedade. Foi o que se tentou fazer no debate “Linha Aberta” de ontem, que de aberta nada teve muito menos Linha houve para quem quisesse contribuir. Aquilo pareceu-se com uma paródia; uma imitação irônica, jocosa, com o propósito de satirizar ou ridicularizar seu conteúdo.
Se ninguém for capaz de dizer e descrever como a governação de Nyusi encontrou o país e como enfrentou os desafios encontrados, logo essa pessoa não está em condições de fazer o melhor juízo sobre os trinta meses da sua governação.
Eu estou feliz pelo facto de a maioria de nós ter rapidamente esquecido em tão pouco tempo dos tremendos desafios que como povo tivemos que enfrentar. Caso contrário, seriamos como outros povos, que não hesitaram em buscar refúgio em outros andares. Perguntem os zimbabwianos, Sírios, Somalis, Sudaneses, Etíopes, Iraquianos, Turcos (curdos), Venezuelanos, Nigerinos, Malianos, Ucranianos, etc., o que é viver num país incerto e instável. Dos poucos mais de 12 mil refugiados no Malawi regressaram todos; VOLTARAM todos, restando pouco menos de 3 mil em Kapisi. Os centros de acomodação construídos pelo INGC para comodar os deslocados internos estão em vias de serem desmantelados. A vida está a VOLTAR a normalidade. Até em Gorongosa, alunos estão neste momento participando dos jogos escolares em Gaza e tantos outros se encontram apinhados em salas de mais de 100 alunos estudando. VOLTARAM as aulas.
Isso tudo não é muito. Tão-somente um sinal do REGRESSO a normalidade. Quer saber com que espírito outros povos enfrentaram crises similares? Pergunte os americanos, sobre como superaram a grande crise de 1929 (crise de superprodução) ou ainda recentemente, com a crise imobiliária de 2008. Quer entender o espírito de resiliência de um povo ante as adversidades? Fale com os gregos, portugueses, se calhar, argentinos ou mesmo irlandeses. Quer perceber como superar a dor da carnificina entre irmãos? Nós mesmos somos esse exemplo de perdão contínuo. Os ruandeses são mestres.
Existe um elemento comum nesses todos povos exemplificados: sua resoluta vontade de superar desafios através da união, entrega ao trabalho e foco. Não há nada do que eles fizeram que nós como povo e como estado não sejamos capazes de fazer. A história deles não é tão diferente do percurso que estamos a atravessar e da história que estamos a escrever.
Há mais pais para além do nosso preconceito.

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