Calamidades Naturais e a Política da Hipocrisia Global (1)

Hoje decidi escrever algo que há muito vinha constituíndo pomo da minha reflexão diária: os caminhos do desenvolvimento nacional, num mundo cada vez mais interdependente, marcado por uma competição anárquica.

Ao observar o meu belo país, vejo e revivo anualmente calamidades naturais (que também incorporam componentes humanas) típicas de uma sociedade retrógrada: seca/estiagem-cheias-cólera-mortes. E, para acompanhar esse festival, o governo vai tomado «medidinhas de baixa intensidade», só para salvar as pessoas em risco de vida, populações «carenciadas»; com programas de contingência absorvendo valores chourdos vindos, na sua maioria, das OENIGÊS (ONGs) de países do Ocidente Europeu e não só.

O sistema das Nações Unidas, as instituições de cooperação bilateral bem como outras organizações não governamentais assim se mobilizam para a mitigação de uma «desgraça» involuntária, imposta por Deus ou Diabo, de acordo com a biblia. Afinal de contas, estamos nos últimos dias.

Mas o que mais me irrita é a recorrência ao erro; é a hipocrisia e resistência à mudança de estratégia; é a falta de atenção e vontade de aprender com os erros do passado. Esperamos sempre que alguém tenha compaixão connosco. Enfim, é a nossa hipocrisia de sempre recorrer à medidas de mitigação de impactos em vez de eliminação de males.

Para melhor estruturar a minha lamentação, dividirei o texto em três partes: (1) A hipocrisia oportunística, (2) a hipocrisia internacional (3) o fatalismo integracional.

1.A hipocrisia oportunística. Pensar Fraco é o paradigma

Passamos –tanto o Governo como o povo, esse bicho que também não aprende – toda a época seca a brincar. O governo vai se entretendo com o trabalho inadequado e obsoleto do INGC, que passa o tempo a procura de comunidades afectadas pela estiagem. Prepara-se o plano de resposta à seca e, antes de entrar em acção eis que é contrariado pelas chuvas que eliminam de vez a esperança dos pobres camponeses cuja esperança estava depositada nas culturas plantadas a beira dos rios – também secos mas que começam a transbordar.

Assim, eis que o Governo entra em cena: apelos aqui, apelos alí; vão eles pedindo auxílio à Comunidade Internacional que prontamente ou não disponibilizam-se em ajudar. Pior que isso é que tem sido TODOS SANTOS ANOS. A hipocrisia aqui resulta na falta de uma estratégia do tipo novo, baseada na solução/resolução dos principais agentes causadores de tanta desgraça. Claro está que não iriamos parar o vento mas já somos capazes de desviar as águas dos rios e usá-la para fins que em tempos de seca nos atormentam!

Na África do Sul, Namíbia e Botswana – país marcadamente semi-desértico – nunca se ouviu falar de coisas parecidas porque estes souberam atacar o problema doutra perspectiva: avançado sistema de irrigação, construção de grandes empreendimentos hidroelectricos, construção de barragens e represas de água, alta extensão rural, «vulgarização no uso de fertilizantes» e todo o conjunto de actividades prévias.

Assim, e por exemplo, conseguem ter água potável e para irrigação, mesmo que a fonte desta esteja ha milhares de kilómetros. Na Namíbia, as pessoas saem à rua e à estrada quando chove, pois esta consiste rara ocasião para testemunhar «água que vem de cima». Todavia, têem eles água potável de melhor qualidade bem como água para a irrigação de seus campos de cultivo. Os poucos rios que lá fluem também enchem mas toda água é aproveitada para futuros e longos períodos de tempo seco. Já não se fala de seca nem de fome porque os campos continuam a produzir.

Em pleno século XXI ainda não podemos nos comparar ao Império do Egito Antigo do Século II Antes de Cristo (o reinado do Farao Amenophis III - 1417 a.C. - 1379 a.C).
Com oNilo sempre a encher e a fazer estragos, este imperador foi capaz de transformar este perígo recorrente numa oportunidade lendária que até hoje os seus descendentes desfrutam. Pelo Nilo já vão mais de 3 Barragens e inúmera série de represas hídricas.

A Arábia Saudita, Marrocos e Líbia carecem de uma forma gritante deste líquido precioso de tal sorte que em qualquer casa de banho de Hotel ou Pensão ou mesmo Bar sempre há uma chamada de atenção para a necessidade de melhor uso da água.

Na Suiça, o sistema de canalização esta de tal sorte montado, que nenhum líquido é subaproveitado. A água passa por um ciclo de reciclagem impressionante! Não vão me dizer que é por que estamos à jusante de maiores cursos de água! Para quem conhece a cidade de Port Said – Egípto, saberá dizer como é que essa situação é tão simplesmente contornável, para além da já mencionada técnica de retenção de águas através de várias formas. E Port Said vem desde os tempos faraónicos.

Não aprendemos com as cheias de 2000. Fomos à Roma, pedimos dinheiro e maquinaria. Vieram alguns europeus, fizeram o que tinham que fazer, mormente «pesquisar do que construir ou reconstruir» e foram-se embora. Hoje, o regadio de Chokwe está como está. Sobre o CAIL pouco se lembra. O complexo agroindustrial de Angónia já não se fala. Apenas WORKSHOPS E SEMINÁRIOS DE SENSIBILIZAÇÃO DE COMBATE CONTRA O SIDA E MAIS NADA.

É possível acabr com esses problemas. Basta um programa sério, virado para a solução definitiva de um problema que nos ridiculariza. Siga o texto.

2.A hipocrisia internacional: ajudar para manter o problema

A Comunidade Internacional também ajudam-nos a manter os mesmos problemas. Ajudam até onde podem, em projectos de menos impacto. Um exemplo. A SIDA. Para além da Fundação Clinton, NENHUMA outra ONG se preocupa em contribuir para a compra de antiretrovirais em Moçambique. Muito menos aliar-se à campanha contra a proibição da produção de ARVs genéricos. Mas falam tanto disso, que ninguém quer imaginar. Um relatório lançado pela SARDC-Centro de Pesquisa e Documentação para Africa Austral – Maputo mostra com clareza meridiana quão hipócritas são os DOIDORES; sim não doadores mas sim o contrário. Preferem financiar projectos de SENSIBILIZAÇÃO que ir directo ao assunto. Gostaria de falar sobre esse tema, mas fica para a próxima.

Quanto as cheias, nenhum doador se disponibiliza em contribuir, muito menos influenciar políticas ou campanhas construtivas, como contrução de barragens, apoio ao alargamento da rede de canalização de água ao Distrito de Mueda, Chicualacuala, por exemplo, muito menos no ensino de técnicas básicas de aproveitamento de recursos naturais bem como agricultura à base das técnicas artificiais.

Todo o camponês, incluse o de algodão, fica a espera da chuva. Quando ela não cai, corre-se em acusar os anciãos mais velhos de feitiçaria, ENQUANTO dormem à beira do rio, como é o caso dos Distritos de Mutarara, Chemba, Caia, Moatize, Morrumbala, só para citar alguns casos. Todavia, ESSAS MESMAS ONGs estão SEMPRE PRONTAS em alugar aviões ou helicópteros para sobrevoar as zonas afectas.

Essas ONGs estão sempre aptas a meter jornalistas em seus carros luxuosos e até em patrocinar aluguer de quaqluer outro meio para o INGC também sobrevoar – exactamente depois deles - desde que a notícias carregue o TIMBRE da ONG.

A Comunidade Internacional não está interessada em promover o desenvolvimento do país. O PMA importa o feijão, que distribui pelos Lares e Hospitais, de países Europeus, acto que constituti na essência UM SUBSÍDIO àquela agricultura, coisa que nos proibem cá dentro. Para o caso, tem sido normal haver excedente suficiente deste cereal em Niassa e uma carência gritante no Sul. Em vez de se comprar em Niassa, compra-se o feijão da Tailâdia, por exemplo.

A comunidade internacional não apoia projectos sérios mas palavras e intenções. Adoptam e globalizam soluções difíceis para depois criticar governos beneficiários de pouco fazerem com vista a alterar situações tristes. Um destes exemplos foi aquando da introdução do PRE, uma porcaria que hoje se tenta remediar através dos PARPAs se bem que também este acto envolva DÍVIDAS.

3.O fatalismo integracional: da Capacidade de aprender apenas maus hábitos

Os nossos maus hábitos não param por aqui. É que NÃO SOMOS CAPAZES DE POTENCIAR AQUILO QUE nós próprios criamos. A Europa cresce com a sua União Eropeia. A América do norte, tonta que é, cresce tanto com a NAFTA como a UE, por via da NATO.

E a África? Na verdade, nem com a UA nem com outra organização regional qualquer. Cresce ou decrece com as OENIGÊS. A rede eléctrica e de água entre a França e Alemanha está de tal sorte bem montada que pode a França fornecer energia à Alemanha ou vice-versa, em caso de um deles sofrer cortes bruscos por um periodo de mais de 10 dias!

A rede de transporte terrestre, fluvial e aérea africana é tão fraca que só mete nojo. Para se chegar à Casablanca – Marrocos, a partir de Maputo tem que necessáriamente passar por Lisboa, se não quiser fazer duas escalas, uma em Johanesburgo e outra em Dakar e lá chegar às seis do dia seguinte, 28 horas depois de deixar Maputo. O mesmo acontencendo com a Tanzania, que deverá passar por Dubai!

Não existe nenhuma ligação terrestre digna desse nome, entre países da África Austral. Não existe nenhum comrpomisso claro entre estados de afinar o seu discurso ante a crescente regionalização que a União Europeia promove à olhos vistos. Não existe nenhuma voz conjunta que clame pelo espírito individualista e egocêntrico da UE e EUA face aos países africanos.

Cá entre nós, não somos capazes de aproveitar, fazendo uso das possibilidades que a União Africana ou SADC possuem, de modo a construir infraestruturas comunitárias sólidas, tendentes a mitigação de calamidades. Estou a falar por exemplo das barragens conjuntamente construidas sob auspícios da SADC ou UA.

Malawi, aqui ao lado (em relação a Tete, Zambézia e Niassa) sofre seriamente de alimentos cerealíferos (por isso compram-nos em larga escala aos pobres camponeses de Mutarara e Milange e Metanngula) enquanto cá entre nós não sabemos produzir tabaco nas montanhas. Um projecto conjunto de construção de infraestruturas como auto-estradas Mutarara-Moz/Nsanje-Mw ou Angónia-Moz/Dedza-Mw seria proveitosa em vez da autoestrada Maputo-Witbank que, ainda por cima, teremos que pagar pesadas taxas de portagem por 50 anos! Esta portagem está a dividir famílias dentro de um território pobre.

Não existe nenhum Modelo Social Africano acordado pelos estados nacionais ou Um Consenso Africano que sirva como contraponto ao Modelo Social Europeu, orientador de toda a política social e económica da Europa!

Lembre-se, um dos factores que levou de vencido a resistência africana foi exactamente a falta da Unidade. Verifica-se mais uma integração intra-estatal, entre antigas colónias com as suas ex-colónias, sob vários pretextos: lusofonia, commonwealth, francofonia, etc, mas nunca uma UNIÃO DOS EX COLONIZADOS defendendo elementos comuns!

Enfim, é-nos mais fácil incorporarmos más ideias que boas. Esse mundo continua à reboque dos ideiais da Conferência de Berlim

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