O vale, antro da corrupção e sofrimento ou, como se enriquece e se empobrece com as cheias?

Sobre as cheias no Vale do Zambeze, muito se falou. E na blogosfera nacional, eu fui foi dos primeiros, quando escrevi este artigo, muito antes de as coisas piorarem.
Nos dias que correm, surge, por causa das águas malígnas (cheias, leia-se) um fenónemo que também, denunciei aqui, neste blog. Gritos te alerta à invasão das populações ditas não afectadas pelas cheias aos campos de concentração ou de reassentamento, foram pela primeira vez tornados públicos aqui, no blog do Professor Carlos Serra. No Vale do Zambeze, está acontecer tudo. Menos boa coisa. Desde o roubo e posterior venda no mercado paralelo de produtos destinados aos deslocados até a fraudulenta ou falsa inscrição de residentes de bairros não afectados pelas cheias, que se fazem passar por estas, com o fim último de se beneficiar de víveres e outros bens.

Em Chupanga, Marromeu, província de Sofala, mais de um milhar de pessos foram detectadas e posteriormente banidas da lista dos afectados, quando foram descobertas que, afinal, não passavam de uns oportunistas que queriam aproveitar-se do bom óleo e de bons cobertores.
Em Mutarara, dois chefes de bairro foram acusadas de inscrever seus familiares nas listas de pessoas afectadas pelas cheias, com o objectivo já conhecido.

Se por um lado a atitude dos régulos e do resto daqueles que acorrem aos campos de acomodação com o fim de se misturarem aos demais sofridos para juntos se beneficiar da ajuda humanitária é condenável, por outro, devemos saber que TODAS as populações do vale estão afectadas, directa ou indirectamente.
Os que por mera sorte ou pela sua localização escaparam às águas, o mesmo não se diria em relação às suas culturas ou outros bens.
Todo o distrito de Mutarara, por exemplo, Caia, Chemba e Tambara, estavam à braços com a fome, antes das águas inundar as machambas das populações. Produziu-se pouco, em virtude da tardia queda das chuvas. As esperanças estavam todas depositadas na segunda época; essa, que já está frustrada.

Deveriam as ONGs Humanitárias e Governo pensar também nos que estão afectados pela vinda dos deslocados, vítimas de cheias, proporcionando-os também comida, porque não a tem.


O resgate empobrecedor

Um relato contado por um cidadão do Centro de Acomodação de Chupanga em Marromeu ajudou-me a acompreender como é que o resgate, seja de emergência seja preventivo; seja por barco ou avião e mesmo de bicicleta do INGC ajuda a empobrecer ainda mais as população.É que às pessoas, são lhes liminarmente proibido levar qualquer coisa que seja.

Vestuário, panelas, roupa, um pouco de comida, tudo. Tudo fica seja porque o avião ou helicóptero apenas está para salvar almas e não cabritos ou farinha. A promessa sempre tem sido a de “vai encontrar lá”! e chhegado “lá” vive-se o drama. As vezes provocado. E os dinheiros chorudos lá vêem,
Mas para os bolsos conhecidos.

Comentários

Diva disse…
Apenas um suspiro caro Egidio... um suspiro de impotencia e tristeza...
Bjs meus
Egidio Vaz disse…
Claro.
Mas as pessoas podiam fazer melhor do que actualemnte fazem.
Uma coisa que me intriga é que a nossa imprensa não diz o que está a acontecer. Na maioria dos casos DIZ aquilo que o chefe viu e quer coemntar. Viajam junto com os dirigentes, sobrevoam as zonas afectadas e, no fianl da viagem perguntam: COMO É QUE FOI A VIAGEM?
chapa100 disse…
mano egidio, colocas questoes pertinentes. como gerir as nossas calamidades, nao ha formulas unicas, como tambem nao ha tragedias iguais.

o ano passado houve um debate interessante sobre o voluntario e servicos de apoio a populacoes necessitadas. e ate houve alguns seminarios e workhops sobre o voluntariado, com ministros e tudo. e na altura questionei o silencio do MMAS, este ministerio tem uma vocacao singular, de criar instrumentos legais, de execucao, de standardizacao da intervencoes, criterios de apoio e mapas de focus de ajuda, e respectivas estrategias de intervencao. para mim era preciso pensar sistematicamente. juntar a cruz vermelha, INGC, e outras entidades vocacionadas.

hoje as nossas intervencoes sao had-hoc, sem instrumentos legais que sustentam isso, sem pessoal qualificado, sem sistema e instrumentos com minimo de standard de qualidade, cobertura, acesso.

esta situacao de pessoas afectadas directamente e indirectamente, nao é novo. basta falar com os colegas que trabalham na area de seguranca alimentar, apoio a vitimas de HIV/SIDA, extensao rural,...isso é reflexo desta falta de criterios e modelos que clarifiquem a nossa intervencao. isto aplica-se a esta propalada accao contra pobreza absoluta: temos que mapear melhor esta pobreza, seus recursos, suas necessidades, actores, seu impacto, populacao afectado (niveis de pobreza), categorias, o parpa ate ajuda, mas nao equipa-nos como intervencionistas. ( basta olhar esta planificacao distrital dos 7 bilioes, com conselhos distritais, planificacao distrital nao é brincadeira, precisa-se de instrumentos, pessoas qualificadas, sistema, etc. assistimos a coisas caricatas onde os distritos nao sabiam o que fazer com isso, apesar de alguns propalarem que é um exercicio de aprendizagem - perigoso quando se trata de um exercicio que deve ser metodologico, construtivo, participativo e que produza resultados imediatos -.

entao mano, ha que trabalhar, ha que apoiar o pessoal que esta no terreno, esta tragedia traz tambem licoes e oportunidade para preparar que o futuro seja menos dramatico que este ( os cientistas vem propalando que os desastres naturais serao ciclicas nesta regiao do mundo).
Egidio Vaz disse…
De facto mano Matine. Ideias não faltaram. Vontade também. Apenas faltou, penso eu, clareza. Como um Governo espera tanto tempo para evacuar pessoas já submersas, sabendo de antemão e por via de orgãos especializados - falo do INGC e do Instituto Nacional de Metereologia-INAM, que haveria chuva, ou no mínimo, que no Zimbabwe e outros países vizinhos está a chover?
Sabe, quando foi das primeiras chuvas, a imprensa, inclusive o Ministério da Agricultura diziam em plenos pulmões: PERSPECTIVA-SE BOA SAFRA AGRÍCOLA para a época 2006-2007. E era essa a canção. Por outro lado, o INAM cantava a aproximação das mais variadas intempéries: chuvas torrenciais, ciclones, efeitos el niño, etc.
Faltou coordenação a priori.
No INGC, verifiquei mesma coisa: Massivo recrutamento de quadros com formação superior para apetrechar a região sul, a semi-árida, abraços com a prolongada estiagem (meus amigos, 5, foram sucessivamente colocados em Mabalane, Chicualacuala, Chóque, e, mais acima, em Pafuri!
Quando apareceram as cheis, todos eles viajaram para Chinde, Mopeia!
E o que mais me intriga: DINHEIRO DE CALAMIDADES NATURAIS NÃO SE JUSTIFICA. GASTA-SE. E NÃO É POUCO. À custa dos pobres.

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